      UM AMOR DE ONTEM

     Laurie Paige


             LAURIE PAIGE nos conta-que a vida depois de uma certa idade (trinta "e alguma coisa") continua cada vez melhor.
     Recentemente foi agraciada com o prmio "Pena de Pra ta" por ter sido escolhida a autora contempornea preferida das leitoras. Laurie d todo crdito, e os 

agradecimentos tambm, s suas amigas leitoras, que so as pessoas mais leais e maravilhosas do mundo. Um outro acontecimento importante juntou-se  premiao: 
o 
nascimento de seu primeiro netinho: 'Definitivamente, um heri de romances em potencial!"
     
     
      CAPTULO I
     
     
     -Sinto muitssimo pela demora. Essa reunio foi totalmente inesperada.
     - disse a secretria, justificando o atraso do patro em atender ao prximo compromisso.
     Victoria Broderick olhou no relgio: quase quarenta e cinco minutos depois da uma hora,  qual seu encontro estava marcado.
     Sorriu, educada.
     - Est tudo bem - falou. - No me importo de esperar.
     Desde que viera especialmente para falar com Jason, nada mais tinha a fazer. E o fato de ser uma espcie de parente, sendo viva do primo em segundo grau de 

Jason, talvez no o fizesse se sentir na obrigao de lhe conceder a cortesia da pontualidade.
     - Ele costuma ser muito pontual - Susan, a secretria, afirmou, continuando a defesa do patro. - Gostaria de mais um caf?
     Percebendo o quanto  garota parecia ansiosa em agrad-la, Victoria concordou e levou a xcara at a mesa dela. A jovem estava muito grvida e no queria for-la 

a andar mais que o necessrio.
     Por duas vezes ouvira Susan ofegar, quando se inclinara para abrir a gaveta do arquivo. A maneira como a secretria pousara a mo sob o abdome tambm a fizera 

franzir a testa, preocupada. Victoria sabia como era estar grvida e como as contraes do trabalho de parto podiam surgir rapidamente e logo desaparecer.
     Susan serviu-lhe o caf e, depois de voltar ao seu lugar, Victoria olhou pela janela. L fora, brilhava um perfeito dia de junho e uma leve brisa balanava 

as folhas das rvores.
     A campainha do telefone a despertou de seus devaneios.
     
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     Enquanto a secretria anotava um recado para Jason, Victoria repassou os motivos de sua presena ali, pela centsima vez.
     Encontrava-se em Raleigh, na Carolina do Norte, que podia ser considerada uma grande metrpole, se comparada  sua cidade natal, Paradise FalIs, no Estado 
de 
Virgnia. Como prefeita da pequena cidade, com uma populao de cerca de cinco mil pessoas, tinha a responsabilidade de levar adiante as promessas de sua campanha, 

que incluam construir um futuro seguro para a regio.
     E estava determinada a cumprir o prometido. Na verdade, aquela era a nica razo de sua viagem at Raleigh.
     A companhia de engenharia de sistemas de Jason havia vencido uma concorrncia para a Marinha, e ela queria que ele instalasse a fbrica de componentes eletrnicos 

em Paradise Falis.
     Imaginou se algum de seus argumentos seria capaz de convencer um homem de negcios rgido com Jason. Ele tambm nascera em Paradise Falis e sabia que era um 

timo lugar para se viver.
     Iria lembr-lo de que, com as montanhas rodeando-a pelos trs lados, a cidade era protegida dos piores ventos do inverno. A primavera e o outono traziam uma 

exploso de cores variadas, quando as flores comeavam a desabrochar, ou quando as rvores avermelhavam-se, antes de perder as folhas. Agora, no vero que se iniciava, 

o clima era perfeito para piqueniques no rio e longas caminhadas.
     E era um excelente lugar para se criar os filhos, juntou  lista mental, ao ver Susan ofegar novamente.
     Haviam se passado sete minutos, desde a ltima contrao, Victoria prendeu o flego, enquanto esperava que a respirao da garota se normalizasse.
     - Voc est bem? - indagou, embora soubesse que era uma pergunta intil. Era evidente que a jovem no estava nada bem.
     Susan abriu a boca, respirou fundo e balanou a cabea, em afirmativa. Pousando a mo na barriga, sorriu.
     - O Jnior parece agitado, hoje.
     Aliviada, Victoria enviou-lhe um sorriso compreensivo. Sabia que os bebs chutavam forte, s vezes, pois estava com seis meses de gravidez, quando ocorrera 

o acidente. Uma estrada congelada e escorregadia. Um carro desgovernado, cujo motorista no conseguira fazer a curva. John praguejando e virando a direo rapidamente.
     
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      Depois, uma contuso de sons e movimentos nebulosos, enquanto despencavam pela encosta da montanha, girando, girando...
     Susan ficou esttica, fazendo uma careta de dor.
     Seis minutos. Aquilo a estava deixando nervosa. Victoria respirou fundo e retomou sua reviso mental, ao ver que a secretria voltava ao trabalho.
     A cidade possua uma fora de trabalho bem treinada, diria a Jason... se o visse. O artesanato da regio era famoso entre os turistas do balnerio local. Porm, 

tinha de admitir que o comrcio era ocasional demais para que as pessoas dependessem dele pai-a viver.
     Olhou no relgio no instante em que Susan tornou a ofegar. Cinco minutos.
     No que fosse uma cidade pobre. Estava longe disto. O Moinho Txtil Clairmont recuperava-se rapidamente dos prejuzos causados pela recesso, e Adam Clairmont 

havia expandido a empresa, incluindo uma nova linha de tecidos impermeveis.
     Como homem de negcios, Jason iria concordar com a importncia da diversidade. Quando uma indstria ia mal, a outra poderia absorver a mo-de-obra. Pelo menos, 

na teoria isto funcionava.
     Quatro minutos. Um tremor nervoso perpassou o corpo de Victoria.
     Por que diabos ele demorava tanto naquela reunio?
     Continuou revendo seus argumentos. A cidade precisava de outra fonte de trabalho, mais confivel que a indstria do turismo e com menos competio externa 
que 
a txtil. Mas teria de ser uma fbrica "limpa", sem fumaa e poluentes txicos. Por isso, sua deciso por algo como componentes eletrnicos era perfeita.
     E aquele era o motivo que a mantinha ali,  espera de Jason Broderick. Sendo diretor de uma das corporaes privadas mais desenvolvidas da Amrica, ele poderia 

ajud-la a atingir seus objetivos e cumprir sua promessa aos eleitores.
     Embora Jason estivesse afastado de Paradise Falls h anos e ela o tivesse encontrado apenas uma dzia de vezes, considerava-se ligada a ele o suficiente para 

lhe pedir um favor como aquele. Na sua terra, a famlia tinha uma grande importncia.
     Recostou na cadeira e cruzou as pernas, fazendo uma pausa para admirar a prpria roupa, um conjunto de saia e blazer de linho azul.
     
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     Usava, sob o casaco, uma blusa de seda num tom mais claro, que combinava com seus olhos. Sabia que ficava bem com aquela roupa. Afinal, passara um dia inteiro 

escolhendo-a.
     - Sbria, como uma prefeita deve ser..,mas ao mesmo tempo, provocante. Voil! Apresento-lhes...a mulher moderna! - Sua amiga Clara havia demonstrado aprovao, 

quando a acompanhara nas compras.
     Uma coisa ela aprendera, na poltica: a aparncia era muito importante. s vezes, era tudo.
     Achava que as pessoas votavam mais na imagem do candidato do que qualquer outra coisa. E tinha conscincia de que era vista como a perfeita "namoradinha" americana: 

divertida, inteligente, trabalhadora e de bom corao. E lhe haviam concedido mais crdito do que merecia, por ter superado a tragdia que lhe abalara a vida. No 

entanto, o que mais poderia fazer?
     Havia aberto uma loja de roupas femininas que se tomara um sucesso. No ano anterior, concorrera ao cargo de prefeita e vencera. A vida tinha de continuar.
     O som do intercomunicador interrompeu-lhe os pensamentos. Erguendo os olhos, viu Susan inclinar-se um pouco para a frente, o rosto tenso, antes de atender.
     - Sim? Est bem. Sim, sei onde est. Vou lev-lo agora mesmo.
     Ela se levantou, enviou um olhar preocupado para Victoria e foi para o arquivo. Com um gemido fraco, abriu a gaveta do meio e parou, colocando a mo nas costas. 

Depois de retirar uma pasta, dirigiu-se  sala de Jason e abriu a porta, permitindo que Victoria tivesse um rpido relance dos homens vestidos com uni formes e 
outros 
com temos escuros.
     Certamente eram os oficiais da Marinha, discutindo o novo contrato. ela concluiu. Nervosa, torceu as mos. Gostaria de estar ali com eles... Porm, antes que 

pudesse pensar duas vezes, Susan saiu e fechou a porta, voltando  mesa com uni sorriso de desculpas nos lbios.
     - A reunio continua animada, hein? - Victoria comentou, num tom amigvel, indicando que compreendia a demora. - Algumas reunies do Conselho de nossa cidade 

chegam a atravessar a noite inteira.
     - Jason deve estar subindo pelas paredes - a jovem tornou.
     - Posso lhe assegurar que ele no esperava que a conferncia se alongasse tanto assim. 
     
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     Mas o pessoal da Marinha fez questo de falar com ele, depois da reunio com os cientistas encarregados do projeto. - Sentou-se devagar e fechou os olhos por 

um instante.
     - Voc est se sentindo bem? - Victoria repetiu a pergunta, franzindo a testa ao ver que a secretria agarrava-se ao tampo da mesa, num evidente sinal de dor.
     - So as contraes... Mas ainda no est na hora. Susan suspirou, ao relaxar. - Falta um ms para a data prevista.
     Victoria olhou para a barriga imensa da garota, pensando que algum havia errado feio com tal previso.
     - Talvez fosse melhor voc se deitar um pouco - sugeriu.
     - No, obrigada. Tenho certeza de que no  nada... - Uma nova careta de dor contraiu-lhe os traos.
     Victoria pousou a xcara na mesa de centro e largou a bolsa na cadeira. Levantando-se de um salto, aproximou-se da garota e segurou-lhe a mo, at que a onda 

de dor diminusse.
     - Venha... - disse. - Voc precisa esticar as pernas. Tirou-lhe a pasta das mos e ajudou-a a deitar no sof. Segurando-lhe o pulso, checou a pulsao, que 

estava forte e estvel. Olhou no relgio. Trs minutos.
     - Sinto-me uma boba - Susan declarou, voltando a sentar.
     - Estou bem, de verdade. Foi s uma pontada. Victoria permaneceu em dvida.
     - Pois isto est me parecendo algo mais que uma simples pontada - afirmou.
     Mas Susan levantou e foi para a escrivaninha. A meio caminho, parou de repente, inclinando o corpo para frente.
     Victoria correu e segurou-lhe o brao.
     - Susan?
     - Ah, meu Deus...- ela gemeu, enquanto segurava a barriga com ambas as mos, o corpo sacudido por fortes espasmos.
     - Um minuto Victoria disse, espiando no relgio. - Acho que voc entrou em trabalho de parto.
     No  possvel! Ainda  muito cedo!
     - Como se isto fizesse diferena. O meu veio... - Victoria calou-se. Seu beb nascera durante o acidente, algumas horas antes de ter sido encontrada entre 
os 
destroos. Dera  luz sozinha, um menino de cabelos escuros e finos, coroando o rostinho perfeito.
     
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     - Voc j teve um beb? - Susan perguntou, quando a dor diminuiu.
     Uma onda de angstia a invadiu, com a recordao. Forando um sorriso confiante, respondeu:
     -  claro que sim. E o segredo  relaxar.
     - Eu sei. Fui nas aulas de preparao para o parto.
     Um lampejo de surpresa surgiu no rosto da garota. Olhou para o cho, murmurando:
     - Eu... eu estou...
     Victoria baixou os olhos e viu a gua escorrendo para o tapete.
     - Acho que passamos da hora - afirmou. - Volte para o sof, antes que o beb caia de cabea no cho.
     A brincadeira fez com que um ligeiro sorriso surgisse nos lbios de Susan, antes que tornasse a se contrair.
     - Ai, est comeando de novo.
     - Fique calma. - Victoria segurou-a pelo minuto que durou a contrao e, em seguida, ajudou-a a deitar. - Fique de lado, com os joelhos juntos. Isto pode aliviar.
     - Chame Jason - Susan pediu, plida. Estava apreensiva, agora que percebia que era para valer.
     - Boa idia. Volto j. Fique a mesmo.
     Victoria balanou a cabea e sorriu para si mesma, diante do absurdo que acabara de dizer. Abriu a porta da sala de reunies sem nem sequer bater, enfiando 

a cabea no vo, a fim de impedir que Susan fosse vista. Oito pares de olhos a encararam, com os mais variados graus de curiosidade. E apenas um par, to azul quanto 

o seu, ela reconheceu imediatamente.
     - Jason... Sr. Broderick... Posso lhe falar um instante, por favor?  urgente.
     - Com licena, cavalheiros - ele disse, sem lhe pedir mais explicaes. Fez a volta pela mesa de reunies e saiu da sala, fechando a porta atrs de si. - O 

que aconteceu? - perguntou.
     Naquele momento, Susan tornou a gemer.
     - Jason, chame Ted.
     Os olhos dele foram na direo do sof e, num segundo, perceberam a situao. Depois, retornaram para o rosto de Victoria e, de repente, sua expresso se alterou. 

Uma emoo, profunda e indescritvel, fez tremer a linha entre os olhos. Mas foi muito breve e desapareceu to depressa quanto havia surgido.
     Victria ficou encarando-o,surpresa Imaginava ter visto um brilho de dor naqueles olhos, 
     
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     mas devia estar enganada. Agora, ele era a prpria imagem da jovialidade e eficincia. Depois de tirar o palet e dobrar as mangas da camisa, inclinou-se para 

Susan e pousou a mo em sua testa.
     - Pode apostar que vou cham-lo - disse. - Ele vai querer estar presente ao grande acontecimento. Primeiro, vou chamar uma ambulncia, depois ligaremos para 

a empresa dele e combinamos de nos encontrar no hospital, est bem?
     Ele parecia to confiante e capaz que Victoria suspirou, aliviada. Era evidente que estava no controle da situao e isto era tudo o que precisavam, no momento.
     - Acho que  tarde demais - Susan gemeu. - Ah, Jason, me desculpe.
     - Desculpar por qu? - ele perguntou, sorrindo e ajoelhando-se ao lado dela. - Ora, querida, no  sempre que um homem tem a chance de trazer ao mundo o seu 

afilhado!
     Victoria pegou-se sorrindo, diante daquelas palavras carinhosas.
     Jason virou-se rapidamente para ela.
     - Chame a ambulncia - disse.
     - Est bem. - Victoria correu para o telefone e, depois de apertar o boto para a linha externa, discou o nmero de emergncia. Uma voz masculina atendeu e 

ela explicou o que estava acontecendo, recebendo a promessa de que enviariam ajuda imediata. - Esto  caminho - disse a Jason, desligando.
     - timo. Agora, ligue para o marido dela. Qual  o nmero, querida? - ele perguntou para Susan.
     Esta murmurou a resposta e Victoria discou-o rapidamente, reparando que tinha as mos trmulas. Quando atenderam, pediu para falar com Ted, mas foi informada 

de que ele estava no laboratrio.
     - Avise-o de que Susan vai ter o beb e que  para encontr-la no hospital. - Ouvia-a gemer, no sof. - Diga-lhe para se apressar - juntou.
     A mulher no outro lado da linha prometeu-lhe passar a informao no mesmo instante e, depois de desligar, Victoria relatou a conversa a Jason.
     - Muito bem - ele disse, lanando-lhe um olhar de aprovao.
     Um calor agradvel envolveu-a, com aquele olhar. 
     
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     Foi para perto dele, tentando imaginar o que mais poderia fazer para ajudar. Susan parecia um pouco assustada, os olhos brilhando.
     - Pronto, est tudo acertado. Vai ficar tudo bem. - Jason enxugou-lhe a testa suada, com um gesto suave e gentil.
     Victoria estava fascinada. Ele mostrava-se muito diferente da primeira impresso que tivera, quando abrira a porta e interrompera a reunio, dando de frente 

com sua, expresso fria e reprovadora. Agora, no entanto, estava calmo, terno e controlando a situao: exatamente o que Susan precisava.
     Observou as mos que seguravam o rosto e o brao da garota. Os dedos eram longos, a pele bronzeada. Sabia que ele gostava de jogar tnis, pois nas ocasies 

em que visitara os pais em Paradise Falis passara muito tempo no clube de campo, jogando tnis e golfe.
     - Voc vai ter de tirar aqueles homens da sala de reunio
     - ele disse, ento, o tom de voz modificando-se ao dirigir-se a Victoria. - Leve-os pela outra porta e... - Fez uma pausa, pensando. Acompanhe-os at a lanchonete 

e diga-lhes que sirvam-se  vontade, por minha conta. Eles podem se encontrar com o chefe das operaes, se ainda quiserem discutir o assunto. Depois que cuidar 

deles, volte para c.
     - Est bem.
     Victoria entrou na sala de reunies, fazendo com que os sete homens que discutiam em voz alta se calassem, ao v-la.
     - Senhores... - ela comeou. - O sr. Broderick foi chamado numa emergncia de... famlia. - Bem, aquilo era verdade, pensou. - Ele sugeriu que os senhores 
fizessem 
uma pausa para o almoo e, se for possvel, voltar a encontr-los mais tarde. Gostariam de me acompanhar?
     Levou-os para o corredor, onde estavam os elevadores. Felizmente, lembrava-se de ter visto um sinal apontando para a lanchonete; no primeiro andar, quando 
chegara. 
Guiou-os at l, passou as instrues de Jason para o rapaz do caixa e retornou ao escritrio da diretoria, no terceiro andar.
     - Pegue um travesseiro e um cobertor no armrio do meu escritrio - Jason ordenou, no instante em que viu entrar. - E toalhas no banheiro. No, deste lado, 

no. Do outro.
     Victoria obedeceu, sem hesitar. Jason segurava ambas as mos de Susan, enquanto ela gemia, passando por outra contrao.
     Em menos de um segundo, Victoria entregou-lhe o que pedira.
     
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     Ele colocou o travesseiro sob a cabea de Susan e o cobertor sob seu corpo. Em seguida, comeou a desabotoar-lhe a saia.
     - Jason... - ela protestou, enrubescendo.
     - Relaxe. Sou um especialista em despir mulheres - ele brincou.
     Com um movimento rpido e habilidoso, retirou-lhe a saia molhada e as roupas de baixo, enquanto a garota fechava os olhos com fora, como se quisesse negar 

que aquilo estivesse realmente acontecendo com ela. Com uma fora impressionante, Jason ergueu-a e enrolou a toalha em torno de seus joelhos dobrados. Susan estava 

na posio de' parto.
     A respirao de Victoria estava to rpida quanto a da jovem, enquanto as contraes ficavam mais fortes e mais fracas, mais fortes e mais fracas.
     Jason continuava a falar, com voz suave e ressonante, enviando-lhe calma e confiana. De repente, Victoria teve a impresso de j ter vivido aquela situao. 

A voz dele era to familiar... como se j o tivesse ouvido falar daquela maneira...
     Era o tom usado por um amante, pensou, vibrando com emoes que no podiam ser transformadas em palavras, querendo atingir a alma.
     Ento, observou seu primo em segundo grau com um interesse renovado.
     Ele sempre se mantivera  parte das brincadeiras em famlia, limitando-se a observar de longe, com um leve sorriso nos lbios. Tal atitude a fizera julg-lo 

como um homem frio, distante e cnico. Mas, agora, via o quanto estava errada. Muito errada... Um tremor perpassou-lhe o corpo e ela cruzou os braos, fitando-o, 

fascinada.
     - Agente firme - ele murmurou, quando Susan emitiu um grito alto de dor.
     "Ele deve ser um amante extraordinrio".Victoria ficou chocada com o prprio pensamento, que explodiu em sua mente. Sentia-se nervosa, descontrolada e repleta 

de um desejo to agudo, to potente que, sem querer, tambm ofegou, alto. Ele lanou-lhe um olhar, rpido e intenso.
     - Jason... desculpe por... tudo isso... - Susan balbuciou.
     - Pois no tem de se desculpar por nada.  para isto que serve o casamento, para amar e reproduzir bebs. Isto  vida, com "V" maisculo.
     
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     O sorriso que ele enviava para Susan era o mais belo que Victoria j vira. Lgrimas surgiram em seus olhos, ante aquela cena, e ela aproximou-se mais. -
     Sentou-se na beirada da poltrona, ao lado do sof, e Jason ergueu os olhos, encontrando os dela por um instante. Victoria estava como que hipnotizada. Sentia 

como se estivesse sendo puxada para um universo desconhecido, atravs daquele olhar. Ele lhe pedia que o acompanhasse, que lhe desse a mo e o seguisse...
     - O qu? - perguntou, voltando  realidade e percebendo que ele falara com ela.
     - Pegue aquela toalha - ele pediu.
     Victoria a entregou e, com um gesto delicado e um sorriso encorajador, Jason enxugou a testa de Susan. Quando a contrao seguinte comeou, segurou-lhe a mo 

com firmeza, at que passasse.
     Um n se formou na garganta de Victoria. Quando Susan tomou a gritar, ela pegou outra toalha, dobrou-a e ajudou-a a colocar entre os dentes, para que mordesse 

enquanto as dores do parto se intensificavam. Pressentiu que o final estava bem prximo.
     - Onde est aquela ambulncia? - Jason murmurou, franzindo a testa.
     - O homem disse que estariam aqui em dez minutos - Victoria respondeu.
     - E quanto tempo j passou?
     Ela olhou no relgio.
     - Seis minutos.
     Jason retirou a mo da de Susan e pousou-a sobre a barriga enorme, comeando a fazer movimentos circulares.
     - Relaxe, agora. Respire fundo. Descanse at que comece a outra contrao.
     A garota conseguiu esboar um sorriso e suspirou:
     - Puxa, isto  mesmo um trabalho duro.
     Por que acha que  chamado de "trabalho de parto"?
     - Queria que Ted estivesse aqui... - Lgrimas surgiram nos olhos da jovem.
     - Ei! Assim voc est me ofendendo! - Jason protestou, em tom de brincadeira. - No estou aqui, massageando sua barriga? Foi Ted que me disse que fez isto, 

quando voc no conseguia dormir direito.
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     - Com bom humor e pacincia, continuava a anim-la, incansvel.
     Victoria sentia a testa mida e a transpirao escorrendo entre os seios, enquanto os minutos passavam, parecendo uma eternidade. Viu quando Jason espiou no 

relgio e, em seguida, ergueu os olhos para a janela, preocupado. Dez minutos j haviam se passado e nem sinal da ambulncia.
     - Talvez seja melhor voc comear a fazer fora para empurrar
     - ele disse, ento.
     Vendo o suor na testa dele, Victoria pegou-a toalha e enxugou-a. Jason virou-se e encarou-a, e ela lhe sorriu, oferecendo encorajamento e apoio.
     - Ela j teve um beb - Susan falou, fazendo um leve gesto de cabea na direo de Victoria.
     Victoria percebeu que a garganta de Jason moveu-se, como se estivesse engolindo em seco, antes que ele dissesse:
     - Sim, eu sei. J sei sobre o beb de Victoria.
     - Quantos anos... - Susan interrompeu-se ofegando
     Victoria esperava que a garota esquecesse aquele assunto, quando a contrao terminasse. No era o momento apropriado para conversarem sobre o que havia acontecido 

h sete anos.. Lembrando-se da prpria experincia com o parto, sentiu-se totalmente solidria com a jovem que se esforava tanto para ser corajosa, enquanto Jason 

continuava murmurando palavras carinhosas e confiantes.
     Observou-o novamente, notando que seus sentimentos em relao a ele tornavam-se cada vez mais temos e claros. Era um homem fcil de se amar, se conseguisse 

atingir o centro daquela alma escondida atrs de uma mscara de frieza e cinismo. A mulher que fizesse isto certamente seria uma felizarda.
     Susan emitiu um som de dor, prendendo a respirao com tal fora que seu rosto chegou a ficar vermelho.
     - Solte a respirao - Victoria instruiu. - No prenda. Voc precisa de oxignio. - Respirou, num ritmo certo, fazendo com que a jovem a acompanhasse.
     - Segure as mos dela - Jason interrompeu. - V para trs dela e segure-lhe as mos. Vou precisar das minhas livres.
     Sentindo o olhar breve e profundo que ele lhe enviava, Victoria obedeceu, percebendo que nunca estivera to unida outra pessoa como naquele instante. Jason, 

Susan e ela, eram apenas um, agora, presentes no momento de um nascimento, de um milagre da vida!
     
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     Juntos, trabalharam durante a contrao, at que diminusse. Victoria limpou o suor da testa, quando Susan finalmente relaxou, e viu que Jason fazia o mesmo.
     - V buscar mais toalhas - ele pediu.
     Victoria correu para o banheiro do escritrio dele e voltou em tempo recorde. Depois de peg-las, Jason colocou-as entre os joelhos e sobre a barriga da garota, 

depois de puxar-lhe a blusa para cima.
     - Est se saindo muito bem, querida - assegurou, sempre num tom encorajador. - Grite, se tiver vontade. Fique calma, agora. No temos pressa nenhuma... Relaxe, 

respire fundo.
     Com lgrimas nos olhos, Victoria assistia  cena, vendo como ele inclinava-se sobre Susan,pronto para ajudar a me e a criana, no instante que fosse necessrio. 

Se ele estivesse ao seu lado, sete anos atrs, seria possvel que seu beb conseguisse sobreviver? pensou. No... Mas ele poderia ter lhe dado o conforto que tanto 

precisara. Ele era... maravilhoso... Foi a nica palavra que lhe ocorreu.
     Havia uma aura de intensidade  volta dele, como se aquele nascimento fosse a coisa mais importante do mundo, como se a vida inteira dependesse do sucesso 
daquele 
acontecimento isolado.
     Emoes estranhas e desconhecidas a invadiam, deixando-a com uma irresistvel vontade de chorar, da mesma forma que acontecera uma vez, quando atingira o clmax 

da paixo.
     Sentiu os dedos doloridos, enquanto Susan os apertava. Uma onda de alegria a invadiu, ao saber que estava intimamente ligada quela nova vida, quele milagre, 

novo e antigo, ao mesmo tempo.
     - Muito bem! - Jason dizia, como se estivesse torcendo num jogo de futebol. - Mostre-nos o que sabe fazer, querida!
     - Quer que eu faa um gol de escanteio - Susan conseguiu brincar, com voz fraca.
     Ele riu, um som vibrante que provocou um arrepio na espinha de Victoria. Era um riso quase idntico ao outro Broderick que ia conhecera, quente, rouco, cheio 

de prazer. Mas, o de Jason, possua algo mais, algo que lhe tocava os sentidos, que atingia profundezas misteriosas de sua alma.
     Olhou pela janela, sentindo uma sbita onda de tristeza e solido. Aquele momento
     
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     pertencia a Susan, no a ela. No tinha mais ningum com quem compartilhar a vida...
     "Pare de sentir pena de si mesma!", ordenou-se.
     Uma ligeira confuso junto  porta a fez se virar. Trs para-mdicos entraram, carregando uma maca e uma aparelhagem para atendimento de emergncia.
     - Graas a Deus... - Jason sussurrou.
     Ento ele no estava assim to seguro quanto demonstrava, Victoria percebeu. Limpando a testa com as costas da mo, ele se afastou, dando espao ao mdico.
     - Bem, o que  que temos aqui? - disse o homem, num tom jovial. Sorriu para Susan. - No vamos chegar ao hospital a tempo, mas creio que ficar melhor na ambulncia, 

onde temos uma cama, do que aqui no sof.
     Os outros dois trouxeram a maca e, juntos, levantaram a garota e a cobriram com um lenol, saindo em seguida.
     - Jason... ela chamou, lanando-lhe um olhar de pnico.
     - Estou aqui, logo atrs de voc.
     - Voc vem comigo?
     - Mas  claro que sim! No perderia isto por nada neste mundo!
     Naquele instante, Victoria deu-se conta de que havia se apaixonado um pouco por Jason, nos ltimos quinze minutos; Mesmo sabendo que o sentimento era provocado 

pela intensa emoo que compartilharam, no deixava de ser extremamente real.
     Jason Broderick no era o homem que ela imaginara ser. Havia mais, nele, muito mais, do que a pessoa cnica e calculista que ele demonstrava ser quando visitava 

Paradise Falis. Queria conhec-lo melhor, queria desvendar os segredos daquele homem...
     Antes de sair, ele parou na porta e virou-se, a testa franzida de preocupao.
     - No se incomode comigo - Victoria disse, com um leve sorriso. - Tome conta de Susan. Eu posso esperar.
     Jason acenou-lhe, os olhos enevoados por alguma emoo que ela no pde identificar, e correu em direo aos homens que levavam Susan. Pela janela, Victoria 

observou-o entrar na ambulncia, um pouco antes de as portas se fecharem.
     A recepcionista surgiu na sala.
     - Gostaria de marcar um novo horrio para falar com o sr. Broderik? - perguntou 
     
     17
     
     - No sei quanto tempo ele vai demorar.
     Victoria franziu a testa, pensando na viagem perdida.
     - No tenho mais nada a fazer - respondeu. - Preciso falar com Jason ainda hoje, de qualquer maneira. Por isso, prefiro ficar aqui esperando, se no se importa.
     A garota pareceu em dvida, mas Victoria tinha muita prtica em lidar com as pessoas. Sentou-se e sorriu, confiante. A jovem hesitou, deu de ombros e afastou-se, 

indo cuidar de seu trabalho na sala da frente.
     Victoria pegou uma revista, folheou-a por cinco minutos e; deixou-a de lado.
     Recostando-se na poltrona, reviu o episdio excitante em que acabara de tomar parte. Ainda no conseguia compreender aquele lado to diferente que enxergara 

em Jason Momentos atrs, porm, fora testemunha de uma faceta que ele jamais demonstrara quando estava com a famlia, ao menos nas vezes em que ela estivera por 

perto. Mas, naturalmente, no era todo dia que algum se envolvia intimamente com o incio de uma nova vida.
     Sentiu lgrimas nos olhos, percebendo que ainda emocionava-se com o ocorrido, e enxugou-os com um leno de papel que tirou da bolsa.
     E parte daquela emoo vinha do fato de ter observado Jason, o enigmtico primo de seu marido, que havia sido o melhor amigo de infncia e padrinho de casamento, 

quando John casara-se com ela. No entanto, nos anos que se seguiram, a amizade se transformara em encontros esparsos e ocasionais.
     Ela havia percebido, ento, a mgoa de John com aquele afastamento, embora ele jamais se queixasse da atitude do primo e amigo. John parecia no entender por 

que Jason se recusava a ir visit-los ou participar das freqentes viagens e acampamentos que costumavam fazer.
     Pessoalmente, Victoria imaginava que fosse por ser solteiro, que Jason no se interessava pela companhia de um casal feliz.
     Mas, fosse como fosse, a verdade  que ele havia se revelado, mostrando-se maravilhoso naquela crise. Lembrou-se das mos dele, massageando a barriga de Susan, 

apertando as dela com carinho e segurana, alm de uma ternura imensa... Ainda espantava-se por nunca haver percebido nele aquele potencial de emoo e humanidade.
     
     18
     Um calor agradvel invadiu-lhe o corpo e, estendendo as pernas, permitiu-Se relaxar. De repente, o som da voz de Jason surgiu em sua mente, baixo, suave, animados. 

Passando a mo pela testa, endireitou-se na poltrona, intrigada e inquieta. Por que lembrava-se disso com tanta nitidez? Jason nunca havia falado com ela naquele 

tom!
     Tornou a fechar os olhos e tentou relaxar, concentrando-se na conversa de negcios que ainda teria de ter com ele. Mas era impossvel. Novamente, a imagem 
de 
suas mos msculas, bronzeadas e gentis lhe veio  mente. Como seria ser tocado por elas, ser acariciada...?
     A respirao tornou-se mais rpida e, mais uma vez, tentou pensar em outra coisa. Mas no adiantou. No podia esquecer a intensidade que vira nele, a paixo 

que colocara em cada mnimo gesto. No uma paixo sensual, mas, mesmo assim, paixo...
     Uma sensao deliciosa invadia seu corpo, como h muito tempo no acontecia. Era como se uma parte de si tivesse sido despertada, depois de um longo sono. 
H 
mais de sete anos no se sentia assim e, de repente, queria ser acariciada, ser tocada...
     Abriu os olhos e levantou da cadeira, de um salto, chocada consigo mesma. O que estava acontecendo?, perguntou-se.
     Do alto de seus trinta e um anos de experincia, tentou encarar as respostas com realismo: a emergncia que acabara de passar havia sido emocional e profunda. 

Como resultado, havia gerado uma camaradagem baseada em sentimentos nobres, da mesma forma que acontece com os soldados, quando juntos numa trincheira. Era s isso.
     Satisfeita com a explicao racional, voltou  poltrona, mas o telefone tocou assim que se sentou.
     Foi at a mesa da secretria e, examinando rapidamente os botes do telefone, viu que a ligao vinha da linha particular de Jason. Talvez fosse ele, ligando 

para lhe dar notcias, pensou.
     Atendeu, com a respirao um tanto ofegante.
     - Al? - No conseguiu se lembrar do nome da empresa e juntou: - Escritrio do sr. Broderick.
     - Quero falar com Jason - ordenou uma imperiosa voz feminina.
     Victoria endireitou o corpo, sentindo uma onda de irritao invadi-la. Detestava pessoas arrogantes, que costumavam tratar as outras sem a menor cortesia.
     
     19
     - O sr. Broderick no est - respondeu, tentando dar um tom cordial  voz. - Quer deixar recado?
     - E onde ele est?
     - Teve de sair, por algumas horas.
     Um silncio mortal caiu do outro lado da linha.
     - Ele vem me buscar s oito horas - disse a voz, ento. - Mas diga-lhe que venha s oito e meia, entendeu? Meu compromisso com as fotos vai se atrasar.
     - Seu nome, por favor? - Victoria perguntou, enquanto puxava um bloco de anotaes para perto.
     - Ele sabe quem eu sou - a mulher disparou.
     - Mas eu no sei - Victoria retrucou suavemente. Tentou escrever no bloco, mas a caneta que pegara no estava funcionando. Enquanto procurava por outra, viu 

a agenda de Jason aberta no centro da mesa.
     - A que horas ele deve voltar? - a mulher perguntou.
     - Bem, no posso dizer com certeza. Houve uma emerg...
     - No se esquea de lhe dar meu recado - a outra inter rompeu. - Anotou a hora direito?
     Victoria espiou na agenda e viu o nome marcado, para o jantar daquela noite. Seu prprio nome era o nico que constava, para a tarde inteira. Suspirou, desolada.
     O destino havia armado uma brincadeira com ela, pensou. No apenas perdera a chance de falar com Jason, como tambm passaria a noite sozinha, no hotel. Fora 

uma perda de tempo, energia e dinheiro, aquela viagem...
     - Ento? - a mulher perguntou, impaciente.
     - Voc  Delores? - Uma idia brilhante acabava de lhe surgir. S no sabia se teria coragem de coloc-la em prtica.
     - Sim.
     - Ah, bem... Jason deixou um recado para voc. Disse que no vai ser possvel encontr-la esta noite.
     - O qu?!
     O grito de raiva feriu os ouvidos de Victoria, mas ela prosseguiu:
     - Ele pede muitas desculpas, mas mandou avis-la de que houve uma... emergncia familiar.
     Uma onda de culpa a invadiu, enquanto dizia a mentira. Porm, tinha de se ater aos fatos: suas razes para falar com Jason eram muito mais importantes do que 

o encontro pa- 
     
     20
     
     ra jantar com aquela mulher desagradvel. As vidas de outras pessoas dependiam dela.
     Alm disso, Delores teria outras oportunidades de jantar com ele.., e provavelmente estaria de dieta e no iria comer nada.
     Um suspiro irritado veio do outro lado da linha.
     - Que tipo de emergncia familiar? - ela perguntou.
     Victoria pensou rpido, mas nenhuma desculpa parecia adequada o bastante para desmarcar um compromisso como aquele. Ento, decidiu dizer a verdade.
     Acontece que uma parente chegou sem avisar e...
     - Uma mulher, no ? - Delores disparou, furiosa.
     - Sim, mas  apenas uma obrigao familiar, voc entende? Jason acha que deve lev-la para jantar e...
     - E como  esta "parente"? - Delores indagou, mas antes que Victoria pudesse falar, deu sua prpria descrio: - Aposto que  alguma loira falsa, com grandes 

olhos azuis e nenhum crebro.
     Victoria franziu a testa. Bem, ela tinha mesmo cabelos loiros, mas eram naturais. E, quanto aos olhos, mesmo sendo azuis, no atrapalhavam em nada sua inteligncia.
     - Bem... - respondeu, ento -, ela tem cabelos loiros, mas at que  bonitinha.
     - Sei o que quer dizer - Delores retrucou, num tom irnico.
     - Odeio este tipo de garota, mas os homens parecem ador-la.
     - Ah,  mesmo? - A conversa estava ficando interessante, Victoria pensou.
     Mas  tudo falso. Essas loiras bonitinhas, quero dizer. Odeio pessoas falsas. - Delores parecia muito irritada, agora. - Escute, diga a Jason que divirta-se 

bastante com a priminha, mas que no pense que vou ficar aqui esperando por ele. Fui convidada para passar o fim de semana na casa de amigos e acabei de decidir 

aceitar. Vou esta noite, mesmo.
     - Darei seu recado - Victoria assegurou-lhe, anotando, palavra por palavra, no bloquinho. - Mais alguma coisa?
     - No. - Delores desligou com fora.
     Victoria pousou o fone lentamente, at que um rudo na porta a fez virar-se.
     Jason estava ali, parado, o sorriso frio, distante e irnico nos lbios, os pensamentos e emoes muito bem escondidos. Aquele, sim, era o Jason que ela conhecia.
     
     21
     
      CAPTULO II
     
     Jason tinha uma aparncia cansada. Mas, ao mesmo tempo, estava incrivelmente atraente. O n da gravata solto, a camisa aberta no colarinho e as mangas enroladas 

at os cotovelos. Victoria teve vontade de passar a mo pelos cabelos escuros e revoltos.
     - Ento, o que vai fazer neste fim de semana? - ele perguntou, tranqilo, enquanto a olhava de cima a baixo. Sem esperar a resposta, deu algumas sugestes:- 

Vamos jantar. Talvez um drinque em minha casa. Depois...
     Encolheu os ombros, como se dissesse que as possibilidades eram infinitas. Os olhos estreitaram-se enquanto passeavam novamente pelo corpo dela, fazendo uma 

breve pausa na altura em que os seios despontavam sob a blusa de seda. Victoria sentiu como se minsculas correntes eltricas lhe subissem pela espinha.
     - Eu... - Tentou pensar numa desculpa para que acabara de fazer, mas no conseguiu encontrar nada convincente.
     - Diga-me uma coisa... ser que posso esperar que nosso parentesco seja... ntimo? - Jason ergueu a sobrancelha, irnico.
     - Bem, deve ser, no ? Laos familiares geralmente levam  intimidade.
     Era evidente que ele ouvira tudo.
     - Jason... - Victoria limpou a garganta. Sentia a boca seca e percebeu que estava muito nervosa. Respirou fundo, antes de continuar: - Desculpe por ter desmarcado 

seu encontro. Mas meu vo sai s oito horas da manh e realmente preciso falar com voc.  muito importante.
     Ele mantinha a expresso neutra, embora um lampejo de irritao ameaasse seu autocontrole. Imaginou por que o destino a enviara at ele. Sua nica fraqueza.
     
     22
     
     E que fraqueza... Cabelos loiros cor de mel, grandes olhos azuis e um corpo perfeito: era difcil para qualquer homem resistir. Quando ela abrira a porta da 

sala de reunies e olhara para ele fora invadido por uma onda de paixo to grande que quase explodiu.
     Sorriu, zombando de si mesmo. No era to frio quanto pretendia ser. Na verdade, estava ardendo por dentro. Naquele instante, daria dez anos de sua vida para 

poder fazer amor com ela.
     Mas isto era algo que ela jamais saberia.
     De qualquer forma, tinha conscincia de que aquele desejo era uma reao natural  tenso por que acabara de passar. A maioria dos homens ficava excitado, 
querendo 
fazer sexo, logo aps uma situao de emergncia ou de um grande triunfo. Ele no era diferente.
     Afastou-se da porta, tentando ignorar o peso no baixo-ventre.
     - Sempre  importante - retrucou  afirmao dela. - Principalmente quando se trata de pedir favores.
     Viu que o rosto dela tornava-se rubro. Seria raiva ou embarao? No podia dizer. Mas, que diferena fazia?
     - Eu preciso mesmo de um favor - Victoria admitiu. Encarava-o de frente, sem implorar e sem se utilizar de seu charme feminino para convenc-lo.
     Jason sentiu uma relutante admirao por aquela atitude. O que quer que fosse que ela desejava, no era motivo para se envergonhar.
     - Muito bem. O que posso fazer por voc? - indagou.
     Victoria franziu a testa, diante de seu tom irnico. Era evidente que ele no estava muito receptivo, no momento.
     Bem, isto era de esperar, pensou. Acabara de passar por uma experincia desgastante e ali estava ela, cancelando seu encontro e armando tudo para seus propsitos.
     - Quero lhe falar sobre Paradise FalIs - disse. - Se pudermos conversar um pouco, ainda esta noite, explicarei os motivos de minha presena aqui.
     Tentou manter-se calma e formal. Porm, ele a deixava nervosa. No conseguia afastar da mente a imagem dos lbios dele tocando os seus...
     - Pelo que acabei de ouvir, estarei livre durante todo o fim de semana - Jason lembrou, a voz tomando-se profunda, rouca, quase... sensual. - Sendo assim, 
por 
que no ficamos juntos?
     
     23
     
     O tom suave no disfarava a ameaa sutil do convite. Enquanto um arrepio percorria-lhe a espinha, Victoria considerou o desafio. Teria coragem de aceitar?
     Tinha um trabalho a fazer, pelo bem de sua comunidade, lembrou-se. 
     Aquilo no era uma proposta amorosa. O fim de semana poderia lhe fornecer a oportunidade de conversar sobre Paradise Falis e todos os seus problemas.
     Mas ser que precisava de um fim de semana inteiro para: isto? E sozinha com ele?
     Uma parte dela achava a idia chocante. Mas outra... Bem, era uma mulher adulta e independente. Que mal poderia haver?
     Franziu a testa, intrigada. Os acontecimentos daquela tarde haviam mexido com ela. Julgara-se apaixonada por Jason... desejava ser tocada por aquelas mos 
fortes 
e gentis. Estremeceu de leve.
     - Comeo a duvidar do meu charme, vendo que voc demora tanto a decidir - ele disse, rindo cinicamente.
     - Isto  srio.
     Pois posso lhe assegurar que sempre sou srio, quando trata de companhia para o fim de semana - ele zombou. Fez uma pausa, juntando: - Pense um pouco sobre 

isto, est bem?         - Encolheu os ombros, dando a entender que a resposta dela no era assim to importante.
     - Quanto tempo eu tenho? - Victoria surpreendeu-se com a prpria pergunta. Estaria mesmo contemplando a possibilidade de passar o fim de semana com ele? Sim, 

estava.
     - At... - Ele olhou no relgio. - At as seis horas.
     Significava que tinha mais de uma hora. Victoria mordeu o lbio, indecisa. Fim de semana... Mas era para. o bem da comunidade.
     - Est bem, eu vou - respondeu, afinal, erguendo o queixo e encarando-o, como se ele estivesse questionando a sua coragem.
     O fim de semana inteiro? Vai desmarcar o seu vo? ele indagou, entre incrdulo e curioso.
     Posso marcar a volta para segunda-feira de manh.
     Jason observou-a pelo que pareceu uma eternidade, at que seus nervos se distendessem como um fio de seda.
     - timo - disse, ento, passando a mo pelos cabelos. - Puxa, estou cansado. Aposto que no tanto quanto Susan, mesmo assim aquele beb deu um trabalho danado.
     
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     Esticou os braos acima da cabea, provocando um leve estalo na coluna. Seu peito musculoso pressionava o fino tecido da camisa branca, fazendo com que Victoria 

estremecesse diante daquela viso.
     E se fosse at ele. recostasse a cabea em seu ombro? Ele iria abra-la, fazer amor com ela...
     Afastou a imagem rapidamente.
     - Como est Susan? - perguntou.
     - Muito bem. Ela, a filha e o marido esto timos.
     - Uma menina... - Victoria murmurou, encantada. - Ted chegou logo ao hospital?
     - Cerca de meia hora atrs. Demoraram a encontr-lo no laboratrio. Mas fiquei com Susan at que ele chegasse.
     Victoria sorriu, tema, lembrando-se dos esforos dele em ajudar. Seus olhos encontraram-se e, por um instante, ela viu algo nos dele, um sentimento profundo, 

misterioso.
     - Voc esteve maravilhoso, hoje - disse. O sorriso vacilou e desapareceu. Por que estava to emocionada? Os bebs nasciam a todo instante, todos os dias!
     A expresso dele modificou-se, tornando-se novamente fria e distante, da maneira como ela costumava v-lo, antigamente.
     Por qu?
     Descobriu que queria conhecer todos os seus segredos; queria desvendar aquele homem.
     - Preciso dar alguns telefonemas - ele falou, quebrando o silncio.
     Alis, o prdio todo estava silencioso, havendo o rudo distante do trfego na rua. Todos j haviam sado.
     Ento vou para meu hotel - ela afirmou. Posso chamar um txi?
     - No se incomode com isso. Se esperar um pouco, levo Voc at l. - Sem esperar resposta, Jason entrou em seu escritrio, deixando a porta aberta.
     Victoria ligou para a companhia area e mudou o vo para a segunda-feira de manh. Depois, sentou-se e esperou, enquanto ouvia Jason falando ao telefone.
     Em certo momento, ele riu e as palavras tornaram-se mais claras:
     - No, Delores, voc no a conhece. - Tornou a rir. - O qu? Ah, acho que para o 
     
     25
      
     chal. Ele  ...bem, do tipo campestre, entende?
     Victoria endireitou-se na poltrona. Um chal? Ele estaria planejando lev-la para algum lugar remoto e afastado? No fora com isto que concordara.
     Vinte minutos se passaram, antes que Jason sasse da sala. Trancou a porta e olhou para ela.
     - Vamos?
     - Jason - ela comeou -, sobre este fim de semana... Quais so seus planos?
     - Descansar e relaxar - ele respondeu, rpido.
     - Ouvi voc mencionar um chal. No quero que desista de qualquer plano que tenha feito para...
     - No se preocupe - ele interrompeu. - Voc pode vir comigo.
     - No - Victoria falou, com firmeza. - No quero atrapalhar mais nada. Reconheo que agi muito mal, desmarcando seu compromisso com Delores apenas para me 
beneficiar, 
e peo desculpas. Se voc ligar para ela, estou certa de que...
     Calou-se, ao ver que ele balanava a cabea.
     - No quero saber de Delores. Quero... estar com voc. Disse que o assunto era importante e, desde que  a primeira vez que me procura, acredito em voc.
     "Quero... estar com voc", Victoria repetiu, mentalmente. O que ele queria dizer com aquilo? Encarou-o, mas no encontrou respostas em seus olhos.
     Hesitou um pouco, concluindo que estava permitindo que as emoes falassem mais alto que o bom senso.
     - Est bem - concordou. Depois, sorriu: - Contanto que prometa no me jogar no primeiro precipcio, por ter arruinado sua vida amorosa.
     Foi como se uma parede se erguesse entre eles, de repente. No devia ter mencionado sua vida amorosa, pensou. Ele a fitou, apenas, sem falar, por um longo 
instante.
     - Prometo - disse, afinal, sem sorrir.
     Victoria sentiu um arrepio. Gostaria que ele pudesse rir com ela da mesma maneira como rira no telefone. Intrigada com suas reaes imprevisveis, pegou a 
bolsa 
e saiu.  Jason trancou a porta e guiou-a para fora do edifcio, enquanto uma sensao estranha a envolvia. Era como se soubesse que uma tempestade se aproximava, 

mas no pudesse fazer nada para fugir. Alis,nem sabia se queria.
     
     26
     
     Com um ar crtico, Victoria analisou o vestido de linho preto por alguns instantes. Dependurou-o atrs da porta e decidiu vestir o mesmo conjunto que usara 

 tarde. Sua amiga Clara havia insistido para que trouxesse uma roupa mais formal, mas talvez o conjunto azul fosse mais apropriado para um jantar de negcios. 
Afinal, 
aquilo no seria um encontro amoroso.
     Acabou de maquiar-se. penteou os cabelos e prendeu-os de lado com uma fivela. Depois de pronta, colocou-se na frente do espelho e franziu a testa. A vaidade 

acabou vencendo: trocou o conjunto azul pelo vestido preto.
     Fechou o zper nas costas, calou os sapatos pretos de saltos altos tornou a olhar-se. As faces estavam vermelhas demais. Espalhou um pouco de p, tentando 

diminuir a evidncia de sua excitao. No era um encontro, repetiu para si mesma.
     As batidas na porta fizeram seu corao dar um salto e, depois de respirar fundo, tentando acalmar-se, foi abrir.
     Jason observou-a por inteiro e, com um sorriso apreciador, entrou no quarto, as mos nos bolsos da cala.
     - Voc est tima - disse. - As garotas da cidade no tero a menor chance, depois que os rapazes a virem.
     - Obrigada.
     Victoria retribuiu-lhe o sorriso e mergulhou profundamente em seus olhos,  procura da pessoa que vira durante a emergncia. Porm, todos os sinais de ternura, 

gentileza e carinho haviam desaparecido. Queria que aquele fosse o homem a acompanh-la, e no o Jason que se mostrava frio, indiferente e cnico.
     Devia haver uma explicao para aquela atitude, pensou. Tal vez, algum dia, ele tivesse se apaixonado e, por qualquer razo, no fora feliz. Agora, mantinha 

as pessoas a distncia, recusando-se a tentar outra vez.
     Se isto fosse verdade, devia sofrer muito. Teve um impulso de tom-lo entre os braos e confort-lo.
     Porm, tratou de esconder este sbito sentimento de simpatia, temendo que ele pudesse interpretar mal suas intenes. Afinal, estavam sozinhos no quarto, cujo 

mvel principal era uma imensa cama de casal. Assim, sorriu e comentou:
     - Voc tambm est muito bem.
     
     27
     
     Jason usava um terno azul-marinho, camisa num tom mais claro e gravata listrada. O efeito geral enfatizava os cabelos escuros e olhos azuis, dando-lhe uma 
aparncia 
mscula e elegante.
     - Est preparada para uma noitada na cidade grande? - ele indagou, brincalho.
     Victoria franziu a testa. Ele parecia um tanto forado, pensou. Mas sorriu, respondendo animada:
     - Quanta gentileza de sua parte! Um solteiro convicto nem sempre desiste de um bom programa apenas para distrair uma parente distante.
     Jason estreitou os olhos.
     - Estou tentando ser agradvel. Afinal, foi voc mesma quem armou esta situao, lembra-se?
     - Eu no devia t-lo incomodado - Victoria falou, perturbada pelas emoes estranhas que a invadiam. Tentou rir. - Quem sou eu, a prefeita de uma cidadezinha 

do interior, para interferir nos assuntos de um magnata como voc?
     - Est arrependida da deciso de ficar comigo? - ele perguntou, irnico.
     Endireitando o corpo, ela o encarou.
     - E claro que no. Apenas tenho uma conscincia inconveniente que me incomoda um pouco, quando digo mentiras - respondeu, no mesmo tom. - No gosto de me sentir 

culpada.Para sua surpresa, ele riu.
     -Bem, diga  sua conscincia que fique descansada. Ouvi quase toda sua conversa com Delores e, se quisesse, poderia t-la interrompido a qualquer momento. 
- 
Encolheu os ombros, dando feito por encerrado. - Ento, vamos?
     Victoria pegou a bolsa e saram juntos na direo dos eleva dores.
     O restaurante ficava no mesmo quarteiro que o hotel e caminharam at l. Ao chegarem, foram levados  melhor mesa, no mesmo instante.
     - Estou impressionada - ela murmurou, ao sentar. - Sou um fregus assduo - Jason explicou.
     - E deve deixar gorjetas generosas.
     Os lbios dele esboaram um sorriso cnico.
     -  verdade - admitiu. - Mas acontece que sou adepto daquele ditado que diz: "Dinheiro  como adubo..."
     Victoria no pde deixar de sorrir.
     
     28
     
     - Sim, eu sei. "Se espalhado, faz um bem enorme. Se guardado, cheira mal" - completou. - E  exatamente dinheiro o motivo que me trouxe aqui.
     Jason estreitou os olhos, quase imperceptivelmente, e Victoria soube que ele tornava a esconder seus sentimentos.
     Porm, imaginava que tal reao fosse inevitvel. As revistas adoravam publicar histrias de empresrios como ele, que conseguiam atingir o sucesso vindos 
do 
nada. Victoria lera que ele aplicava cada tosto ganho na companhia e que comera centenas de sanduches de manteiga de amendoim, para economizar dinheiro. Fizera 

fortuna por si mesmo, abrira seus prprios caminhos. E, como ela, outras pessoas haviam lido sua histria e sabiam que ele era um homem rico. Provavelmente lhe 
pediam 
dinheiro o tempo todo.
     Por um segundo, algo rebelou-se em Victoria, ao pensar que se igualava a tantos outros que iam at ele em busca de favores. No entanto, suspirou, resignada. 

Como prefeita, tinha uma obrigao a cumprir.
     - Ento, fale-me sobre isto ele sugeriu: O garom aproximou-se da mesa. - Depois que fizermos os pedidos.
     Jason consultou o garom sobre a especialidade do dia e, rapidamente, escolheu o que iriam comer. Victoria gostou daquilo, pois abominava a indeciso.
     Talvez fosse impulsiva demais, mas preferia decidir logo a seguir em frente, mesmo se a deciso provasse ser errada, mais tarde. Era melhor do que ficar se 

preocupando indefinidamente. Suspeitava de que Jason tambm fosse assim e, observando-lhe o rosto atraente, sentiu retornar a chama que ardia dentro dela.
     No havia como negar aquele fato: ela o queria.
     E, por isso mesmo, precisava ser cautelosa. Estava confundindo desejo com amor, uma experincia emocional com a prpria emoo.
     - Agora - ele disse, voltando a ateno para ela, depois que o garom se afastou -, o que h de to importante a ponto de fazer a prefeita se afastar de suas 

obrigaes?
     - Bem, no estou aqui exatamente por prazer - ela retrucou, defensiva.
     O sorriso irnico desapareceu do rosto dele.
     - No se preocupe - falou, com frieza. - Isto nem me passou pela cabea.
     
     29
     
     Surpresa, Victoria percebeu que o havia magoado.
     - Desculpe, no foi o que quis dizer. E um prazer reencontr-lo, mas isto nada em a ver com o motivo de minha viagem. Preciso lhe falar a respeito de Paradise 

Falis.
     - Hum, hum - ele murmurou, sem qualquer inteno.
     - Ah, que droga! - ela exclamou, exasperada.
     Jason ergueu os olhos.
     - Isto  jeito de uma prefeita se expressar? - perguntou, divertido. - O que as pessoas vo dizer?
     Ela estudou-o por um instante.
     - Como se voc se importasse - concluiu. - Sempre fez o que quis e falou o que bem entendeu.  um solitrio, como John costumava dizer.        
     - Isto  verdade. Gosto de trilhar meus prprios caminhos. E isto se torna mais fcil quando se est sozinho, no acha?
     Victoria no podia suportar o sarcasmo na voz dele. Queria ter de volta a pessoa sensvel que sabia existir, por trs daquela mscara.
     - Voc no pode se afastar desta maneira das melhores coisas da vida - falou, devagar.  -Como disse  Susan, sobre amar e...
     -Produzir bebs - ele completou, percebendo-lhe a hesitao.
     -Sim, e ter algum com quem compartilhar a vida. - Por uma frao de segundo, Victoria imaginou-se "produzindo bebs". Uma dor aguda perpassou-lhe o corpo. 

Uma vez, segurara um bebezinho contra os seios e tentara dar vida quele corpo minsculo...
     No, no podia pensar naquilo, agora. Tinha de se controlar. No entanto, a imagem de Jason ao lado de Susan, gentil e carinhoso, persistia em sua mente. Queria 

t-lo de volta!
     - Voc foi to delicado... - murmurou, incapaz de controlar a emoo. Sentiu lgrimas nos olhos e respirou fundo, tentando se acalmar.
     - O que esperava que eu fizesse? - ele perguntou. - Preferia que eu gritasse com ela, como fiz quando voc... - Calou-se, abruptamente.
     Victoria ergueu os olhos, encarando-o. Ele estava imvel, a expresso congelada.
     Ento, uma cena desenrolou-se em sua mente, como se estivesse acontecendo naquele 
     
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     mesmo instante. Estava com frio, mui to frio e, depois, no sentia mais nada. Um sono irresistvel abatia-se sobre ele e sonhava que estava entrando por um 

corredor iluminado pelo sol. Por instinto, sabia que se o atravessasse iria se aquecer, e deu um passo  frente... depois outro... Mas algo a chamava de volta.
     Uma voz, irada e aflita, interrompia seu sonho, obrigando-a a parar. Algum batia em seu rosto! O corredor desaparecia e, de repente, ela tomava a sentir frio.., 

frio, dor e medo.
     - O que foi? - Jason perguntou, num tom baixo e preocupado.
     - Nada - ela respondeu. - Estava me lembrando de um... sonho.
     Balanou a cabea. Jason jamais gritaria com ela, pensou. Nunca a havia tocado, quanto menos esbofeteado. Com certeza, nunca a teria tomado nos braos e chorado 

em desespero, enquanto as lgrimas quentes lhe.tocavam o rosto gelado. Tocou as faces, quase sentindo-as midas. Tudo havia sido to real...
     Afastou tais sensaes, esforando-se por esquecer o pesadelo.
     - O que foi que disse? - perguntou, voltando  ltima afirmao dele. - Quando foi que gritou comigo?
     - Ora, naquela partida de tnis em que fomos parceiros, lembra-se? Voc perdeu uma bola na rede.
     - Ah, sim... Puxa, faz tempo.
     -  verdade. Muito tempo - Jason concordou, mergulhando em pensamentos.
     O garom trouxe os pedidos, interrompendo o silncio que se abatera entre eles. Victoria decidiu que era hora de iniciar sua preleo.
     - Bem, sobre Paradise Falis... - comeou.
     Jason ouviu-a ex seus planos, a voz dela lhe soando como doce msica. Falava sobre o potencial crescente e o baixo custo da mo-de-obra da pequena cidade encravada 

nas colinas do Oeste da Virgnia. Era to sincera, to convincente que ele viu-se tomado de um sbito impulso de abra-la e... No! obrigou-se. Esquea isso!
     - Ento, voc se disporia a ir conversar com o Conselho da cidade? - ela indagou, ao final da longa lista de argumentos.
     - Talvez - ele respondeu. Ao ver que ela abria a boca para responder, ergueu a mo. 
     
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     - V com calma. Voc ainda tem dois dias para me convencer.
     Victoria sorriu.
     Tenho certeza de que vou conseguir - afirmou.
     Um calor intenso atravessou o corpo de Jason. Queria beij-la, mais do que tudo no mundo. Jamais sentira o sabor de seus lbios, mas podia imaginar o quo 
doce 
seria.
     - Pode tentar  vontade - disse, esperando que a voz soasse despreocupada.
     Haviam acabado de comer e tomavam caf, enquanto Victoria continuava enumerando as maravilhas de sua cidade. Jason olhou em volta, reparando nos casais das 

outras mesas, que riam, conversavam ou apenas se olhavam. Estava na hora de irem embora.
     Virou-se para Victoria e reparou que ela observava os casais danando no centro do salo.
     - Vamos danar - ouviu-se dizendo.
     Ela fitou-o, surpresa com a sugesto. De repente, sentiu-se muito jovem e feminina. Quando Jason tocou-lhe as costas, guiando-a para o salo, foi como se um 

fogo a invadisse, da cabea aos ps.
     Danaram muito circunspectos, de incio, mantendo uma boa distncia entre eles, ao contrrio dos outros pares, que se abraavam com intimidade.Mas Victoria 

sentia o calor da mo dele em sua cintura e estremeceu de leve, quando Jason puxou-a mais para si.
     Ele baixou a cabea e seus olhos se encontraram. Por um breve instante, ela percebeu um relance de desejo, quente e apaixonado, nos dele. Com os lbios trmulos, 

imaginou como seria
     beij-lo... Queria ser abraada por ele, com fora. Queria fazer amor com ele...
     -Isso  loucura - murmurou, sem se conter.
     - , sim - ele respondeu, como se soubesse a que ela se referia.
     - A que horas vamos sair para o chal? - Victoria perguntou, afastando os olhos. Se pensasse em coisas prticas talvez conseguisse esquecer as sensaes que 

a invadiam.
     - Bem cedo. Acha que pode estar pronta s sete horas?
     Ela fez que sim.
     - Ento vou busc-la no hotel. Tomamos o caf l mesmo e samos antes que as estradas fiquem muito congestionadas.
     
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      Onde fica este chal?
     - Num lago, a cerca de duas horas daqui. Fica entre as montanhas e  todo cercado de rvores, de maneira que no se pode ver as outras casas da redondeza.
     Parecia o lugar perfeito para se descansar ao lado de algum que se amava. Victoria tornou a olhar para Jason. Haveria amor entre eles? perguntou-se.
     No, era evidente que no. Haviam compartilhado um momento intenso e mgico, no qual ela descobrira que ele era um homem muito diferente daquele que imaginara. 

Mas fora apenas isto: um encanto breve e passageiro..
     Jason abraou-a um pouco mais, como se lhe adivinhasse os pensamentos. Seus olhos encontraram-se novamente, os lbios muito prximos, a respirao de ambos 

num mesmo ritmo. Por um instante, ela imaginou que suas emoes tambm estavam cm unssono, mas logo percebeu que se enganara, ao ver que Jason esboava um sorriso 

leve e irnico.
     Precisava tomar cuidado, lembrou-se. Aquele homem era capaz de destruir o corao de qualquer mulher que fosse tola o bastante para se apaixonar por ele.
     
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      CAPTULO III
     
     
     Victoria sentiu uma presso no peito, quando uma triste cano de amor comeou a tocar. No era sempre que o amor mostrava-se assim, to repleto de angstia, 

pensou. Na verdade, seu casamento com John fora sempre cheio de alegrias e de uma felicidade tranqila.
     Mas, estando ao lado de Jason, no a deixava nem um pouco tranqila. Ao contrrio, nervosa, agitada, envolvida em sensaes tempestuosas que atingiam o fundo 

de sua alma.
     Obrigou-se a parar de pensar naquelas tolices. No precisava dramatizar os acontecimentos do dia nem as suas reaes malucas  ele.
     Quando a msica terminou, suspirou, aliviada. Jason mantivera-se em silncio durante todo aquele tempo, a expresso inescrutvel, como se quisesse afastar 
qualquer 
emoo ou sentimento. Depois que ele pagou a conta, saram do restaurante e caminharam de volta para o hotel. Jason ia a passos rpidos at que, a deixava para 
trs. 
Parou, ento, e virou-se para ela.
     - Desculpe - murmurou. Tomou-lhe a mo e deu-lhe o brao, passando a andar num mesmo ritmo.
     Quando entraram no saguo do hotel, disse:
     - No estou com sono. E voc?
     - Tambm no - ela respondeu, imaginando que ele iria convid-la para um drinque no bar.
     - So apenas dez horas - Jason falou, olhando no relgio.
     - Podemos estar no chal  meia-noite.
     - E esta noite? - ela gaguejou.
     Entraram no elevador e, enquanto as portas se fechavam, Jason apertou o boto do andar em que ela estava.
     
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     - Tem alguma coisa a fazer, ainda hoje, ou amanh de manh?
     - perguntou.
     - No.
     - Ento?
     Victoria podia sentir a impacincia na voz dele. Havia tomado uma deciso e queria v-la concretizada o mais depressa possvel. Sabendo que tambm se sentiria 

assim, se estivesse no lugar dele, concordou.
     - Devo fazer as malas e fechar a conta do hotel? - perguntou, enquanto abria a porta do quarto.
     - Sim - ele respondeu, fazendo-a entrar.
     A primeira coisa que Victoria percebeu foi  cama. A colcha havia sido retirada, revelando os lenis claros e convidativos. Sua camisola de renda estava estendida 

e uma rosa vermelha fora colocada sobre um dos travesseiros.
     Era uma cena ntima e romntica.
     Enquanto um calor delicioso espalhava-se em seu corpo, ouvia a porta sendo fechada atrs de si. Deixou a bolsa numa cadeira e virou-se, devagar.
     Jason estava parado junto  porta, as mos nos bolsos. Os olhos, escuros como um cu  meia-noite, pareciam penetrar em sua alma, repletos de desejo.
     Um som, quase um gemido, emergiu de dentro dela. Ele a observava, imvel. Dez segundos se passaram... vinte... At que o silncio se tornou insuportvel.
     Ela no soube quem fez o primeiro movimento. Mas, de re pente, Jason a segurava pelos ombros e seus lbios se fechavam sobre os dela. Foi um beijo que a inflamou 

at a alma.
     Depois do primeiro instante de surpresa, Victoria passou a retribuir o beijo espontaneamente. Sentindo-lhe a lngua nos lbios, abriu-os, permitindo que ele 

a explorasse com paixo. Enquanto ondas de desejo a sufocavam, encostou o corpo contra o dele, roando-o com um movimento lnguido.
     Jason sufocou um gemido e afastou-se, abrupto. Foi at a janela, onde ficou de costas para ela.
     - Quanto tempo - comeou, mas fez uma pausa, respirando fundo, antes de repetir: - Quanto tempo precisa para se arrumar?
     Como ele, Victoria tambm precisou limpar a garganta e recuperar o controle, antes de responder:
     - Uns dez minutos.
     
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     - Est bem. Vista alguma coisa confortvel.
     Ela concordou com a cabea, mesmo sabendo que ele no podia v-la. Porm, ao olhar para a janela, percebeu que Jason a observava atravs do reflexo no vidro 

e um estremecimento percorreu-lhe o corpo inteiro.
     Abriu o armrio, pegou a roupa que escolhera para a viagem de volta e correu para o banheiro. Quando saiu, guardou o vestido preto e as outras peas na mala, 

antes de fech-la. Na maleta de mo, guardou a camisola, os chinelos e os objetos de toalete.
     - Estou pronta - avisou.
     Jason olhou no relgio.
     - Oito minutos - comentou. - Um tempo bastante razovel, para uma mulher.
     Parecia evidente que ele recuperara o autocontrole, Victoria pensou, desejando poder dizer o mesmo de si.
     Jason pegou as malas e, quando chegaram  recepo, deixou-a fechando a conta, enquanto ia buscar o carro.
     - O quarto no foi de seu agrado? - o funcionrio perguntou, ansioso. Era muito jovem e parecia preocupado com aquela sada repentina.
     - Ao contrrio - ela respondeu, sorrindo. - Gostei muito. Mas meus planos mudaram de repente. - Hesitou um pouco, sem saber de estaria ou no de volta no domingo 

 noite. - Talvez fosse melhor deixar um quarto reservado. 
     -Estamos lotados at o final da semana, a partir de amanh -o rapaz desculpou-se.- Haver uma conveno na cidade. -Tudo bem. Estou certa de que posso dar 
um 
jeito. Quando saiu, Jason a esperava em seu carro luxuoso. Victoria entrou, reparando que ele havia tirado o casaco, a gravata e dobrara as mangas da camisa. Prendeu 

o cinto de segurana e, minutos depois, deixavam para trs as luzes da cidade, enquanto a escurido da noite os envolvia.
     Jason deu-se conta de que no havia pronunciado uma palavra sequer, durante toda a viagem. Se quisesse bancar o anfitrio bem-educado, era melhor comear agora. 

Parou num restaurante de estrada.
     - O que gostaria de beber? - perguntou. - Caf, refrigerante?
     - Nada, obrigada -ela respondeu.
     
     36
     
     - A no ser desejar que no tivesse vindo comigo?
     Sem esperar resposta, ele saiu e bateu a porta do carro. Quando retornou, sentia sobre si o olhar curioso que ela lhe enviava. Ligou o motor e partiu. Se ela 

pudesse ler sua mente...
     Desde que a viagem comeara, imagens dos dois no chal no lhe saam da cabea. Ficava imaginando-a vestida com aquela camisola de renda... Era to fina, seria 

como se no estivesse usando nada...
     Bebeu um gole de caf e pressionou os lbios, lembrando-se do beijo que haviam trocado. Ela havia se assustado, de incio, mas logo correspondera, os lbios 

suavizando-se e se entreabrindo para ele.
     Felizmente, fora capaz de se afastar a tempo, pensou. Estremeceu de leve, pensando em todas as coisas que poderia ter feito, se no tivesse interrompido o 
beijo.
     Victoria teria conscincia de como ele se sentira, enquanto danavam? Se a tivesse abraado da maneira como os outros casais na pista se abraavam, ela certamente 

teria percebido. Se a pressionasse contra seu corpo, no haveria mais a menor dvida, para ela, do quanto estava excitado.
     Diabos, pensou. Era de se julgar que um homem de trinta e trs anos fosse capaz de controlar o prprio desejo. Porm... ele a queria havia tanto tempo, ela 

sempre fora a sua loucura maior, a nica fraqueza que no pudera erradicar ou controlar.
     - Est uma noite agradvel para se viajar, no acha?
     A voz dela, suave, melodiosa, interrompeu-lhe os pensamentos. Arriscou um rpido olhar em sua direo e descobriu que estava sendo observado pelo olhos claros 

e luminosos. Uma dor aguda pressionou-lhe o peito.
     - E, sim - murmurou, sem sequer lembrar-se da pergunta.
     Fixou-se na estrada  sua frente, enquanto imaginava se agira certo, sugerindo que fossem para o chal. Quanto mais pensava, mais conclua que fora uma tolice.
     - Eu no preciso ir - ela murmurou, ento, como se pudesse ler seus pensamentos. - E bvio que voc no deseja minha companhia...
     - E o que a faz pensar assim? - Jason tentou dar um tom divertido  voz, mas falhou. Alis, nada do que lhe acontecera, durante todo aquele dia, tivera graa 

nenhuma.
     - A sua animao? - ela sugeriu, irnica.
     
     37
     
     - Desculpe. Vou tentar ser mais comedido - ele respondeu, no mesmo tom.
     Um lampejo de raiva a invadiu.
     - No se preocupe com isso - disse. - Fique  vontade.
     Ele riu, embora a seus ouvidos o som parecesse forado.
     - Voc no sabe - murmurou. - Simplesmente, no sabe.
     - No sei o qu? - ela perguntou, irritada. - Est falando sobre o beijo? Muito bem, peo desculpas. No devia ter acontecido.
     Jason virou-se e encarou-a por um segundo, antes de tornar a ateno para a estrada.
     - Que droga... - sussurrou.
     - Escute, quero que me leve de volta...
     - Estamos quase chegando.
     - Se no queria que eu fosse, por que me convidou?
     Ele pressionou o volante com tanta fora que as juntas dos dedos embranqueceram.
     - A  que est o problema - disse, com toda calma. - Quero sua companhia. Na verdade, quero voc, neste exato minuto.
     Victoria ofegou diante daquela franqueza, mas enviou-lhe um olhar divertido porm frio.
     -Esta surpresa? - indagou. - Afinal,  uma mulher bonita e eu um homem que gosta de mulheres. O que poderia ser mais natural? 
     Victoria sentia como se caminhasse em campo minado. 
     -Foi por causa daquele beijo, no ? - perguntou, embaraada. Ele deveria julg-la uma viva assanhada.
     - E isso mesmo.
     Ela torceu as mos sobre o colo, nervosa. No era possvel que ele tivesse percebido sua inquietao, durante o jantar, e nem os pensamentos que tivera a respeito 

dele.
     - Relaxe, Victoria - ele disse, ento. - Nada vai acontecer. Vamos apenas discutir seus planos sobre Paradise Falis, enquanto pescamos e descansamos.
     -  claro.
     Victoria deu-se conta de que se enganara, pensando que ele estava com raiva. Na verdade, ele zombava dela. Mesmo assim, tentou se explicar:
     - Sobre aquele beijo... - Fez uma pausa, odiando-se por estar to envergonhada. 
     
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     - Foi por causa desta tarde. Quero dizer, depois de ver o quanto foi gentil com Susan, a delicadeza com que a tratou...
     - Foi a emoo do momento? - Jason ajudou-a, ao ver que ela hesitava.
     - Sim. - Estava satisfeita ao perceber que ele entendia. - Foi maravilhoso observ-lo, ouvi-lo. Me senti como se estivesse fazendo parte da vida, novamente, 

como se despertasse depois de um longo sono...
     - De sete anos?
     Ela virou-se e seus olhos se encontraram.
     - Sim - respondeu, baixinho.
     Jason tornou a sentir uma intensa onda de desejo. A voz dela, suave, um murmrio sibilante no ar fresco da noite, o atingia como uma carcia. Imaginou como 

seria o mesmo som implorando-lhe que a beijasse mais, que a abraasse com mais fora...
     Mexeu-se no banco, tenso e desconfortvel. Tinha de parar com aqueles pensamentos! No podia sequer imaginar-se na cama com ela, que havia sido a mulher de 

seu melhor amigo.
     - Durante toda a tarde fiquei pensando... como seria se voc me tocasse daquela maneira - Victoria acrescentou, num fio de voz.
     Jason sufocou um gemido, enquanto sentia uma presso na garganta. Ela no estava sendo provocativa, disse a si mesmo. Estava apenas se desculpando, tentando 

explicar por que corres pondera quele beijo com tanta paixo.
     - Ento, quando ficamos sozinhos no quarto - ela prosseguiu -,apenas aconteceu. Eu nem me dei conta do que estava fazendo. Espero que me desculpe.
     Ele franziu a testa.
     - Desculp-la? - repetiu.
     - Sim, por t-lo beijado. Foi como voc disse, a emoo do momento, o resultado da tenso...
     Jason comeou a compreender.
     - Voc acha... est que foi voc quem me beijou?
     - perguntou.
     - Bem... Sim. Fui eu quem comeou... - Victoria interrompeu-se, ao ouvi-lo rir.
     - Meu bem, est completamente enganada! - ele conseguiu dizer, entre o riso.
     
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     Victoria cruzou os braos, furiosa. Ele era a pessoa mais irritante que j conhecera. Ali estava, abrindo seu corao e tentando explicar seus sentimentos 
ridculos, 
e ele ria!
     - Estou tentando ser honesta com voc - afirmou. Respirou fundo, antes de acrescentar: - Esta tarde cheguei a imaginar at que estivesse um pouco apaixonada 

por voc.
     Jason enviou-lhe um de seus olhares mais frios e distantes.
     - E mesmo? Est com medo de que eu me aproveite de seus sentimentos, enquanto estivermos no chal? - perguntou. - E isto que a preocupa?
     - E claro que no! S estava tentando explicar o que aconteceu no meu quarto, o que me levou a beij-lo!
     - No foi voc quem comeou aquele beijo, Victoria. Fui eu. E fui eu quem o interrompeu, ao sentir seus lbios se suavizarem sob os meus. Foi quando senti 
que 
era o momento de parar.
     - Ah... - Victoria tentou rever aquele momento, a fim de descobrir quem fizera o primeiro gesto, mas foi impossvel. Tudo o que conseguia se lembrar era o 
beijo, 
quente, intenso, impetuoso e breve demais.
     Decidiu que haviam agido ao mesmo tempo, numa atrao, melhor ainda, numa combusto espontnea. 
     -Se no tivesse parado - Jason juntou -, Deus sabe at onde teramos ido.
     -Ah...
     -Isto mesmo - ele concordou, cnico. - "Ah...".
     O resto da viagem foi feito em silncio. Alguns minutos depois da meia-noite, Jason saiu da rodovia principal, entrando numa estrada estreita e ladeada por 

altos pinheiros. Chegaram  casa pouco depois.
     - Espere aqui - disse, saindo do carro.
     Abriu a porta do chal e acendeu as luzes, de dentro e de fora. Num instante, a escurido reinante se transformou, revelando os arbustos, os pinheiros e rvores 

que circundavam a casa.
     O chal era uma construo simples, feita com troncos de madeira, havendo uma varanda em toda sua extenso. Victoria saiu do carro e esperou as prximas instrues.
     De onde estava, podia ver o lago, a lua iluminando a superfcie e refletindo as pequenas ondas provocadas pelo vento.
     
     40
     
     Jason retornou, desligou os faris do carro, fechou as portas e retirou a bagagem do porta-malas. Com um gesto, deu passagem  Victoria, quando chegaram  
entrada 
do chal.
     - Puxa,  lindo! - ela exclamou, tendo uma viso geral da sala mobilhada com poltronas confortveis diante da lareira, as estantes de livros, as cortinas num 

tom de bege suave. A sala de jantar era uma extenso daquela mesma rea e apenas um balco separava a cozinha.
     - O que estava esperando? - ele perguntou, com sorriso maroto. - Alguma alcova tpica de solteiro?
     - No... - Ela tambm sorriu. - Mas pensei que fosse mais rstico, mais... primitivo.
     - Seu quarto fica nesta direo. - Jason passou  frente, levando-a para um pequeno corredor, onde haviam trs portas e uma escadinha para o sto. Abriu a 

porta da direita e entrou, deixando a mala sobre um ba aos ps da cama. - O banheiro fica na ltima porta  esquerda - informou. - H apenas um, por isso vamos 

ter que dividir.
     - Tudo bem, eu no me importo.
     - Eu no estava me desculpando.
     - timo. Ainda assim, no me importo.
     Jason enviou-lhe um rpido olhar, antes de dirigir-se at a cmoda e pegar uma cala jeans e uma camiseta, de uma das gavetas.
     - Este  seu quarto? - ela perguntou. - Posso dormir em outro lugar. Na verdade, at prefiro.
     - E o nico quarto com porta - ele respondeu, num tom que no admitia discusso. - Voc vai precisar de privacidade.
     Victoria percebeu que ele estava cansado. Havia sido um dia longo.
     - Devamos ter parado para comprar mantimentos - lembrou.
     Um copo de leite quente ajuda a relaxar.
     Jason foi at a porta e, antes de sair, informou-a:
     - Tem comida na cozinha, se estiver com fome. - Fechou a porta atrs de si e se afastou.
     Victoria sentou na beirada da cama e passou a mo pela nuca, dando-se conta de que tambm estava exausta. Pegou a maleta e retirou a camisola e os artigos 
de 
toalete. Mudou de roupa e, depois de pegar a escova e pasta de dentes, foi para o banheiro. Quando ouviu as batidas na porta, quase derrubou tudo no cho.
     
     41
     
     - Sim?
     - Fiz um chocolate quente, se quiser.
     Ela olhou-se no espelho. O robe que usava era de tecido grosso e mangas compridas, bastante respeitvel, portanto. Decidiu que iria aceitar o oferecimento. 

Olhou no relgio e viu que era uma hora da madrugada. Haviam se passado doze horas, desde que chegara no escritrio dele.
     Quando entrou na cozinha, ele colocou duas canecas de chocolate no balco que fazia a divisria com a sala de jantar. Virou-se para ela, com um sorriso lacnico.
     - Anime-se, Cachinhos de Ouro! - brincou. - H apenas um urso, aqui, e ele no vai mord-la.
     Era um homem totalmente imprevisvel, Victoria concluiu. Num instante, estava irritado, depois, zangado. Em seguida, parecia achar engraada e evidente atrao 

que havia entre eles.
     Atrao?, perguntou-se. Sim. Ela no era a nica a sentir aquele desejo maluco. Ele tambm era vulnervel. Por algum motivo, o fato de saber disso a fez se 

sentir mais segura.
     - Voc garante isto? - perguntou, retribuindo-lhe o olhar.
     Jason pousou as mos na cintura e observou-a por um instante.
     - Ser que isto  um desafio? - perguntou. 
     -Talvez - ela respondeu, com um sorriso.
     Ele respirou fundo, enquanto Victoria olhava, fascinada. O peito largo expandia-se e os plos apareciam sob a camisa aberta, provocando-lhe um impulso de estender 

a mo e toc-los, sentir-lhes a maciez.
     -muito engraado - ele disse. - Agora, sente-se. Volto num instante. - Foi at o armrio da cozinha e pegou um pacote de biscoitos.
     Victoria sentou-se e ele colocou as canecas, os biscoitos e dois guardanapos de papel sobre a mesa. Ela escolheu um dos biscoitos e mordiscou-o, enquanto Jason 

comia quatro, um depois do outro. Bebeu todo o chocolate e serviu-se de mais.
     - No tem problema de peso? - ela indagou, admirada com aquele apetite.
     - No.
     Victoria enviou-lhe um olhar de inveja.
     - Sorte sua - disse.
     - E voc, tem?
     - Tenho, sim. Principalmente depois que fui eleita prefeita.
     
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     Vou a tantos almoos e jantares comemorativos que, s vezes, chego a sonhar que estou nadando num mar de salada de batatas. Quando isto acontece, acordo dois 

quilos mais gorda.
     Ele riu, um som que a deixou encantada. Com a noite envolvendo-os, o momento tornava-se muito ntimo, quase sensual, atingindo-lhe todo os sentidos.
     Ficaram ambos em silncio, ento, introspectivos. Victoria imaginou o que seus amigos de Paradise Falis diriam, se a vissem agora.
     Haviam lhe dado instrues e conselhos durante toda uma se mana, sobre o que deveria dizer a Jason, a fim de convid-lo a voltar para a cidade natal e participar 

das comemoraes do centenrio do municpio. Uma vez que ele estivesse l, o Conselho se encarregaria de convenc-lo instalar a fbrica na regio, caso Victoria 

falhasse em sua misso.
     Porm, ali estava ela, sozinha com Jason e incapaz de pensar numa palavra sequer.
     Com o canto dos olhos, Jason viu-a levar a caneca aos lbios e beber o chocolate. Quase gemeu baixinho, sentindo um desejo louco de beij-la novamente. Sabia 

qual era o sabor daqueles lbios, agora.
     O que mais o surpreendera fora o fato de saber que ela tambm o desejava. E isto tomava ainda pior e mais dolorosa a deciso que tomara de no se envolver. 

Victoria havia sido a mulher de John, havia amado seu primo, e ele no aceitaria ocupar um segundo lugar em sua vida.
     Percebeu que ela lhe falava.
     - O qu? - perguntou.
     - Se j terminou, vou lavar as canecas.
     - No precisa.
     - Mas no me importo de...
     - J disse que no precisa - ele interrompeu, brusco. Viu um brilho de surpresa e mgoa surgir nos olhos dela, diante de sua grosseria, mas no pde se desculpar. 

- V dormir-juntou, num tom mais suave. - Voc  minha convidada, lembra-se? Pode deixar a loua por minha conta.
     Victoria agradeceu e foi para o quarto, sentindo que ele lhe mostrara seu lugar. Era apenas uma convidada, no uma amiga.
     Por que Jason no gostava dela?, pensou.
     Na verdade, parecia no gostar de ningum. Nas reunies de famlia, por exemplo, s
     
     43
     conseguia ser amigvel com as crianas que o rodeavam em adorao. 
     Porm, havia sido maravilhoso com Susan.
     Suspirando, deitou-se e apagou a luz, O sono demorava a chegar e. depois de virar-se de um lado para outro vrias vezes, ouviu, um rudo do lado de fora. Abriu 

os olhos, percebendo que uma sombra passava pela sua janela e cobriu a boca com as mos, sufocando um grito de susto.
     Levantou da cama num pulo e correu para a janela. Afastou as cortinas e viu Jason caminhando pela trilha que dava para lago, usando apenas um calo escuro. 

A luz da lua, seu corpo brilhava como o de um Deus, jovem e poderoso.
     Ficou ali, observando-o at que chegasse ao lago e ouviu e barulho da gua, quando ele mergulhou. Mordeu o lbio, q: explodindo de desejo. Por um instante 
de 
loucura, pensou reunir-se a ele, imaginando como seria abra-lo sob a gua, sentir-lhe o corpo nu e molhado contra o seu.
     Mas era evidente que no podia... Um relacionamento compromissos, uma nica noite de sexo e paixo no se encaixava nos seus planos. E, para ele, seria apenas 

isto.
     E para ela, o que seria?
     No podia dizer, ao menos no estado em que se encontrava agora. Um desejo insano e indescritvel tomava cona de todo seu ser, impedindo-a de pensar racionalmente. 

Mais do que tudo, queria ser jovem, livre, despreocupada.
     Sete anos atrs, havia perdido uma parte essencial de si mesma, numa tragdia irreversvel. Mas, agora... Agora sentia que a vida estava ali, esperando por 

ela. To prxima quanto... Ergueu os olhos, admirando a lua sobre o lago.
     Estava to prxima quanto um raio de luar, suspirou.
     
     44
     
     CAPTULO IV
     
          
     Na manh seguinte, Victoria despertou lentamente, demorando-se sob as cobertas, relutante em encarar o dia. Ou melhor, em encarar Jason, admitiu.
     Olhando pela janela e vendo o sol brilhar l fora, tornou os pensamentos  madrugada anterior. Havia ficado ali por cerca de vinte minutos, observando a espuma 

branca espalhar-se sobre o lago, que indicava que Jason estava nadando.
     Quando ele sara da gua e voltou  casa, ela permaneceu imvel na janela, o corao disparando no peito. Ele subira os degraus da varanda e, depois de parar, 

havia olhado por um instante na direo de sua janela. Victoria lembrava-se do momento exato em que ele a vira.
     O corpo dele se tornara rgido, como se pressentisse um perigo. Um arrepio lhe percorrera a espinha e ela desejara fugir dali o mais depressa possvel e nunca 

mais encontr-lo. Ao mesmo tempo, quisera correr at ele, atirar-se em seus braos e perder-se na paixo que, sabia, ele tambm sentia.
     Mas nada fizera. Teria de encarar a luz do dia, na manh seguinte, e sabia que seria incapaz de dormir com ele e depois prosseguir como se nada tivesse acontecido.
     De repente, sua vida se tornara insuportavelmente complicada, pensou.
     Imaginou o que teria feito, se ele a procurasse. Mas, ao contrrio, Jason havia entrado na casa e ido direto tomar um banho. Mais tarde, quando tudo ficara 

em silncio, Victoria adivinhara que ele fora deitar-se. E, logo em seguida, adormecera.
     Victoria levantou, foi lavar o rosto e, ao retornar para o quarto, vestiu a mesma roupa que usara na viagem: cala comprida azul-marinho e a blusa listrada 

de azul e branco. Depois de arrumar a cama, aventurou-se at a cozinha.
     
     45
     
      Eram sete horas. No havia nenhum sinal de que Jason j se levantara.
     Depois de uma rpida inspeo nos armrios, encontrou a cafeteira e fez caf. Havia tambm po, cereal, frutas frescas e, na geladeira, leite, ovos e verduras.
     Aquilo era muito estranho, pensou, franzindo a testa.
     Comeu torradas, cereal com leite e, pegando a xcara de caf, foi para fora a fim de fazer um reconhecimento nos arredores.
     Uma clareira abria-se ao lado do chal, onde ficavam os quartos. Um pouco mais adiante, havia um deque de madeira que estendia-se at o lago, formando um ancoradouro, 

e Victoria caminhou por ele, devagar.
     Era um lago de bom tamanho. No to grande que impedisse se ver a outra margem, mas largo o suficiente para que se pudesse cruz-lo com um barco a motor.
     Recostou-se num dos postes do ancoradouro e ali ficou, bebericando o caf e admirando a paisagem. Ao longo da margem lago, viu sinais de civilizao. Vrios 

barcos estavam ancorados, a maioria botes e canoas. Imaginou que barcos a motor no fossem permitidos, pois os habitantes certamente desejariam preservar a paz 
e 
a quietude do lugar.
     Vui que havia diversos outros chals por entre as rvores.  esquerda ancoradouro, mais  frente, um pescador solitrio estendia a linha de pescar, e quando 

o homem virou-se em sua direo, avistando-a, ela acenou.
     - Ol! Est visitando Jason? - Uma voz feminina chamou-a.
     Victria virou depressa, surpresa. Uma mulher, usando short brancos e blusa rosa-choque, amarrada sob os seios, descia pelo deque, aproximando-se dela. Era 

mais alta que Victoria e possua uma graa de movimentos que se costuma a associar com danarinos profissionais. E era muito bonita.
     Quando chegou mais perto, Victoria percebeu que deveria ter um ano ou dois a mais que seus prprios trinta e um anos. Car regava uma cesta, que estava coberta 

com um guardanapo xadrez.
     - Estou, sim - lembrou-se de responder.
     - Sou a vizinha de Jason e meu nome  Millicent Bryant. Aquele ali  meu marido, Douglas, que est pescando. Moramos aqui ao lado. Pode nos chamar de Millie 

e Doug.  -Aquelas palavras foram todas acompanhadas de um sorriso.
     
     
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     Novamente, Victoria ficou surpresa. O pescador, de cabelos grisalhos, parecia muito mais velho que ela. Imaginou se a mulher no estaria na casa dos quarenta 

e aparentasse menos.
     - Trouxe pezinhos frescos para Jason - Millie prosseguiu.
     - Onde est aquele preguioso?
     - Na cama, ainda - Victoria respondeu, sem pensar. Viu os olhos da vizinha arregalarem-se um pouco, antes que um sorriso compreensivo lhe surgisse nos lbios. 

Ficou vermelha no mesmo instante, dando-se conta do que acabara de dizer. Era evidente que Millie entendera errado seu relacionamento com Jason.
     - Encontrou tudo o que precisavam? - Millie perguntou.- Fiz o possvel para deixar os mantimentos de primeira necessidade, quando Jason ligou avisando que 
viria 
para o fim de semana.
     - Ah, sim. Tudo est timo.
     - Voc mora em Raleigh? - Millie inquiriu, e, embora seu tom fosse amigvel, Victoria sentiu-se um tanto desconfortvel com aquele interrogatrio.
     - No - respondeu, sorrindo brevemente. Achou melhor explicar direitinho qual era a sua situao ali. - Na verdade, moro em outro Estado. Jason  um primo...
     - Ah,  parente - Millie interrompeu, parecendo desapontada.
     - Mais ou menos. Sou prima de Jason por parte de marido. Millie olhou imediatamente para sua mo esquerda. Mas Victoria j' no usava a aliana havia alguns 

anos.
     - E onde est seu marido?
     - Sou viva.
     - Ah, sinto muito...
     - Tudo bem. Aconteceu h muito tempo. Mas agora estou aqui para conversar com Jason a respeito de um acordo de negcios.
     - Negcios! - Millie afastou a idia com um gesto de mo.-O que Jason precisa  de distrao. Este  o primeiro fim de semana que vem para c, desde que ouvi 

falar sobre aquele contrato com a Marinha.
     Victoria olhou em volta, como se esperasse encontrar Jason observando-as e ouvindo-lhes a conversa, com o seu sorriso frio. Mas a varanda continuava vazia. 

Ele ainda estaria dormindo?
     
     47
     
     - Eles ganharam a concorrncia - disse, voltando-se para a vizinha. - Creio que, agora, ele vai poder descansar.
     - timo. Tome isto aqui. - Millie entregou-lhe a cesta. - E diga a Jason que estou com a geladeira cheia de peixes. Vou considerar um favor se vocs dois vierem 

nos ajudar a acabar com eles, no jantar de hoje. Por volta das sete, est bem?
     - Vou dizer a ele - Victoria prometeu.
     Continuaram conversando por mais alguns minutos, falando sobre o tempo, at que Millie despediu-se e voltou para casa. Depois de meia hora, Victoria tambm 

caminhou para a varanda do chal. O sol estava ficando quente.
     Foi para a porta da cozinha e olhou em volta: nenhum sinal de vida. Deixou a cesta no balco, serviu-se de mais caf e dirigiu-se para a sala. O quarto de 
Jason.ficava 
bem ao lado, numa espcie de escritrio, mas era separado por uma parede. Imaginou se ele estaria ali, dormindo.
     Lembrando-se de como ele parecera cansado, no dia anterior, pensou que bem merecia algumas horas extras de sono. Pegou um livro na estante e voltou  varanda, 

onde ficou lendo pelo resto da manh.
     Um pouco depois do meio-dia, foi para a cozinha preparar um sanduche. Pegou o po, maionese e um pacote de presunto, deixando tudo sobre o balco. Abriu urna 

das gavetas para retirar uma faca, mas quando a pegou, esta escorregou de sua mo, caindo ao cho com um rudo metlico, antes de bater na porta do armrio com 
o 
que lhe pareceu um estrondo.
     Segundos depois, Jason aparecia na cozinha, e parou abrupta me, ao v-la.
     Uma imagem de longas pernas, peito largo, musculoso e coberto por um tufo de plos, alm de outros significativos detalhes masculinos, ficou gravada na mente 

de Victoria. Ele estava apenas de cuecas.
     Virando-se de costas, ela murmurou:
     - Desculpe. Estava com fome e decidi fazer um sanduche. No tive inteno de acord-lo. Quer alguma coisa? Para comer
     - juntou, apressada. Percebeu que no estava sendo muito coerente, enquanto sua imaginao armava dezenas de cenrios para aquele momento, e nenhum deles tinha 

a alimentao como motivo principal. - Talvez prefira tomar caf. Posso lhe preparar alguns ovos. - Abaixou-se e pegou a faca no cho.
     
     48
     
     - No, obrigado.
     Victoria ouviu o som dos passos de Jason e percebeu que ele estava se afastando. Respirando fundo, comeou a fazer o sanduche e percebeu que as mos estavam 

trmulas. No gostava nem um pouco das sensaes que a viso do corpo dele, quase nu, havia lhe provocado. E que corpo... Msculo, firme e bonito... Sentiu um arrepio 

percorr-la por inteiro.
     Jason praguejava contra si mesmo, enquanto se vestia. O barulho na cozinha o assustara e correra at l, pensando encontrar-- algum desconhecido que entrara 

na casa.
     S ento se lembrara de sua hspede. Baixou os olhos para o prprio corpo, com um ar de desgosto.
     No havia a menor dvida de que ela percebera o que lhe passara pela mente, ao v-la. Estava tenso e excitado, ardendo pelo alvio daquele desejo que o consumia, 

como urna dor de dentes. Que idia maluca fora aquela, de convid-la para passar o fim de semana no chal?, perguntou-se, com raiva.
     Mas, a questo principal era a seguinte: como iria conseguir manter-se afastado dela pelas prximas quarenta e oito horas?
     Acabou de vestir o jeans e a camiseta e dirigiu-se ao banheiro, sempre recriminando-se mentalmente. Depois, retornou  cozinha, desejando ter ficado doente, 

durante a noite, para no ter de encar-la. Mas talvez estivesse mesmo doente, pensou. Doente da cabea.
     Riu baixinho. Era este o problema. Havia enlouquecido. Do contrrio, por que a trouxera para ali? Nunca antes uma mulher viera com ele para o chal, pois aquele 

era o seu lugar secreto, o seu esconderijo.
     Bem, agora no mais nada a fazer, exceto manter o controle.
     Victoria no estava na cozinha. Olhando pela janela, Jason viu-a na varanda, comendo um sanduche e lendo um livro.
     Tomou um copo de suco de laranja, serviu-se de caf e encontrou a cesta de pezinhos. Millie j estivera por ali, concluiu.
     Fez um ovo quente, que comeu acompanhado por dois dos pezinhos de Millie.
     Quando acabou de lavar a loua, no teve mais desculpas para ficar l dentro. Apanhou duas varas de pescar e a caixa com os equipamentos e iscas, e saiu.
     
     49
     
     - Vou pescar um pouco - anunciou, caminhando pela clareira, em direo ao ancoradouro. - Tenho uma vara de pescar extra, se quiser me acompanhar.
     Com o canto dos olhos, viu-a pousar o livro entre os seios. Foi o bastante para que ficasse excitado.
     - Sua vizinha MiIlie nos convidou para jantar, s sete horas. Eu disse que iria falar com voc. Tambm trouxe pezinhos frescos, esto no balco da cozinha.
     - J os encontrei. Se falar com MilIie antes de mim, diga que aceitamos o convite. - Jason estava aliviado em saber que no teriam de ficar sozinhos,  noite.
     Victoria continuou lendo. No sabia se ele queria ou no que lhe fizesse companhia. Ou melhor, sabia que no queria, mas talvez esperasse que ela o seguisse. 

Deu de ombros, decidindo acabar de ler o livro.
     A tarde j ia adiantada quando Victoria foi para o ancoradouro. Podia avistar Jason um pouco mais adiante, prximo  curva do lago envolvido com as linhas 
e 
anzis. Pegou a vara de pescar que ele deixara no deque e viu que havia uma isca do anzol. Achou que poderia tentar sorte com os peixes e encaminhou-se at o final 

do ancoradouro, onde a gua ficava mais profunda.
     Embora no pescasse havia muito tempo, depois de algumas tentativas sentiu que mordiam a isca. Muito excitada, comeou a girar a carretilha, depressa de incio, 

mas depois com mais cuidado, para no deixar o peixe escapar. Batalhou por mais algum tempo, at que conseguiu pux-lo. Era dos grandes.
     O peixe agitava-se, enquanto ela dava mais linda, temendo que se esticasse demais, pudesse se romper.
     - Solte a linha - Jason gritou. - Deixe-o correr. Agora, puxe-o de volta. Isso mesmo, devagar. - Subiu no ancoradouro e correu em sua direo.
     - E um peixe grande! - Victoria exclamou, esforando-se por seguir-lhe as instrues, soltando e puxando a linha.
     - Eu sei, vi quando pulou. - Jason pegou uma rede e preparou-se para apanhar o peixe, assim que ela o trouxesse para  perto.
     Dez minutos se passaram, antes que finalmente conseguissem tirar o peixe da gua. Quando o viu bem preso na rede, Victoria sentiu no ancoradouro, as pernas 

trmulas.
     
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     Puxe, este deu trabalho!
     - E foi um bom trabalho - Jason elogiou, preparando-se para limpar o peixe.
     - Pode deixar que fao isto - ela disse.
     - No se incomode. Eu posso...
     - Meu pai me ensinou a limpar meus prprios peixes - Victoria interrompeu, pegando a faca e, com habilidade, comeou a tirar a cabea do peixe.
     Jason tambm se sentou e, surpreso. observou-a. Era uma mulher admirvel, pensou. To pequena, delicada, mas disposta a enfrentar tudo o que lhe aparecia pela 

frente: mulher de negcios, prefeita, companheira de pescaria.., amante.
     - Ei, que beleza de peixe voc pegou! - Doug Bryant aproximava-se, vindo da clareira. - Aposto que  o mesmo que Jason vem tentando apanhar h trs anos
     Victoria riu e, ao olhar para Jason, viu que ele tambm sorria. De repente, seu corao ficou mais leve.
     - Ser que posso oferec-lo como minha parte para o jantar de hoje? - perguntou a. Doug.
     - E claro que sim. Do jeito que Jason come, bem que iremos precisar do reforo.
     - Acredito - ela concordou.
     - Esperem um pouco, vocs dois! - Jason protestou levantando-se. - Caso no saibam, sou muito sensvel a respeito de meus hbitos alimentares. Alm disso, 
este 
no  o meu peixe, Doug. O meu  maior e mais esperto do que esta coisinha a. Ora, ele estava to ansioso por ser apanhado que quase pulou no colo de Victoria!
     - No  verdade! - ela protestou, fingindo-se indignada, mas logo os trs comearam a rir.
     Doug acenou para eles e retomou o caminho de casa.
     - Vejo vocs daqui a uma hora!
     - Certo. Vamos, Victoria - Jason apressou-a. - E melhor irmos nos arrumar, se quisermos chegar na hora. - Estendeu-lhe a mo, ajudando-a a levantar.
     O simples toque fez com que Victoria estremecesse. Assim que ficou de p, afastou-se dele e encaminhou-se rapidamente na direo da clareira. Ele seguiu ao 

seu lado e quando seus ombros se tocaram, afastaram-se ao mesmo tempo, mas no antes de trocarem um breve e intenso olhar.
     
     
     51
     
     - Pode tomar banho primeiro - ele disse, ao chegarem. Levou o peixe para a cozinha, sem olhar para trs.
     Depois de pegar o robe e seus objetos de toalete, Victoria foi para o banheiro. Enquanto a gua quente corria pelo seu corpo, considerou a atrao magntica 

que a unia a Jason. Era uma sensao incontrolvel, que no conseguia reprimir ou negar.
     No havia ido para a cama com um homem desde que seu marido morrera. Nas poucas vezes em que pensara a respeito, pois conhecera muitos homens atraentes, naqueles 

anos, algo a fizera mudar de idia.
     Pensando nisso, conclura que no se satisfaria com relacionamentontimo que fosse apenas ocasional. Teria de haver mais do que simples alvio sexual, ou mesmo 

amizade e companheirismo.
     Ento, por que sentia, agora, aquela necessidade de se entregar a Jason?
     Nem sequer sabia se gostava dele como pessoa. Na verdade, considerara um homem frio e egosta. Ento, por qu?
     Fechou a torneira e enxugou-se, sempre analisando suas reaes. Comeava a suspeitar de que Jason mantinha aquela atitude fria e reservada apenas para esconder 

seu lado vulnervel. Vestiu o robe e foi para o quarto.
     -O banheiro est livre! -avisou, em voz alta. Jason estava sentado na escada da varanda, as longas pernas estendidas. 
     Ela observou-o por um instante, agora no mais com desejo, mas sim com uma imensa ternura. Ele havia sido magoado, ferido, concluiu. Era a nica explicao. 

Mais uma vez, foi tomada por um impulso de confort-lo, de aliviar seu sofrimento. Porm, balanou a cabea e entrou no quarto.
     Victoria examinava seu guarda-roupa limitado, O vestido preto, definitivamente, no era apropriado para um jantar com vizinhos. A cala-azul marinho j comeava 

a ter uma aparncia usada demais... Decidiu vestir a saia do conjunto de linho com uma blusa cor-de-rosa, de seda. Era o melhor que podia fazer. Calou os sapatos 

de salto baixo, que levara para o caso de ter de sair para fazer compras, em Raleigh.
     Jason a esperava na sala e, ao v-lo, seu corao disparou. Estava com uma camiseta plo vermelha preta que, em contraste com os cabelos escuros e olhos azuis, 

faziam-no parecer um aventureiro.
     
     52
     
     -Se estivesse com um brinco, estaria parecendo um pirata. - comentou, esforando-se para assumir a mesma camaradagem fcil que haviam compartilhado durante 

a pescaria.
     -Olhe mais de perto-ele convidou, com um sorriso maroto. Victoria inclinou-se, examinando o lbulo da orelha que ele mostrava. De fato, embora no estivesse 

de brinco, ele tinha a orelha furada.
     -Resultado dos meus dias de juventude e rebeldia Jason explicou, ao ver que ela parecia impressionada.
     - Devia usar um brinco de argola. - Ela sorriu e, quando respirou fundo, sentiu o agradvel perfume da colnia que ele usava, despertando todos os seus sentidos.
     - Talvez eu use, algum dia. Para voc.
     As coisas comeavam a esquentar. Victoria achou melhor mu dar de assunto:
     - Posso imagin-lo como um adolescente rebelde.
     - Pode mesmo?
     A voz dele tornara-se mais grave e sensual. No podiam aproximar-se um do outro sem que fagulhas de desejo e sensualidade comeassem a explodir.
     - Est pronta? - ele perguntou, ento.
     Victoria fez que sim e saram em direo  casa dos vizinhos. Millie e Doug estavam na cozinha e gritaram para que entras sem, quando chegaram. O chal era 

bem parecido com o de Jason, tendo a mesma diviso de ambientes e o mesmo estilo. Junto ao balco que separava a cozinha da sala haviam duas banquetas, que Doug 

indicou, convidando-os a sentar.
     - Estou preparando minha mais famosa especialidade - Millie anunciou. -  um coquetel com suco de frutas e vinho. Voc gosta de vinho? - perguntou a Victoria.
     Ela assentiu, acomodando-se em uma das banquetas. Quando Jason sentou-se na outra, seus joelhos se tocaram levemente, mas o bastante para lhe provocar um estremecimento.
     Aquilo estava ficando fora de controle, Victoria pensou, to mando um gole generoso da bebida e tentando sufocar a agitao. Estava comeando a agir como uma... 

Bem, como uma mulher normal, interessada num homem viril que, embora no compreendesse, a intrigava e atraa.
     
     53
     
     Doug arrumou a mesa com pratos coloridos, enquanto MiIlie temperava e fritava o peixe de Victoria. Depois, juntou-o  travessa onde estavam os outros fils, 

j prontos.
     - No  sempre que comemos frituras - Millie explicou.
     - Mas, de vez em suando, no consigo resistir  tentao. Victoria sorriu e disse:
     - Entendo o que quer dizer. Normalmente, fao apenas uma sopa e uma salada, para o jantar. Porm, s vezes tenho uma vontade irresistvel de comer alguma coisa 

no to saudvel e vou  lanchonete Paradise, em minha cidade, onde fazem o melhor hambrguer com cebolas e cogumelos que existe. E sempre peo batatas fritas, 
tambm, 
que adoro.
     Victoria olhou de relance para Jason, percebendo que ele a observava, com um sorriso e um brilho misterioso nos olhos. Era como se estivesse lhe fazendo um 

convite secreto, ntimo, para lev-la a um mundo de sensaes que ela nem sequer sabia existir.
     Mexeu-se na banqueta, inquieta. Desde o momento em que brincara com ele, a respeito do brinco, uma tenso crescente surgiu entre os dois. Sentia-se sufocar 

pelo desejo que estavam
     Compartilhando.
     -O jantar est servido!- Doug anunciou, colocando a travessa com os peixes sobre a mesa.
     Segurando-a pelo braos, Jason ajudou Victoria a descer da banqueta e, sem solt-lo, guiou-a at a mesa, onde esperou que a anfitri se sentasse, antes de 
puxar 
uma cadeira.
     A comida estava deliciosa e os anfitries eram encantadores. Quando Victoria comeou a se sentir totalmente  vontade, Jason indagou a Doug sobre sua empresa. 

S ento ela descobriu que aquele homem de aparncia simples e com jeito de pescador era o presidente de uma das mais famosas companhias de utilidades domsticas 

e decorao dos Estados Unidos.
     A conversa tomou o rumo de profisses e negcios, at que Jason passou o brao pelos ombros de Victoria, fazendo uma leve carcia com os dedos em suas costas.
     -Pois saiba que esta minha prima aqui ocupa um cargo muito importante - disse. -  prefeita de Paradise Falis.
     - E mesmo? Devamos cham-la de Sua Excelncia, ento! - Millie exclamou, sorrindo.
     - No  necessrio. Basta fazer uma reverncia, sempre que eu sala -, Victoria brincou, com ar modstia, provocando
     
     54
     
      risos.
     Por volta das onze, Jason anunciou que era hora de voltarem para casa.
     - Quero comear a pescaria bem cedo, amanh - explicou. Enquanto caminhavam pela trilha que separava os chals, Victoria comentou:
     - Voc me pareceu diferente, em companhia de seus amigos. Em Paradise Falis sempre dava a impresso de ser mais fechado. Por que, Jason?
     Ele encolheu os ombros, indiferente.
     - No sei. Talvez, como voc disse, seja por causa da companhia.
     Porm, a pergunta o fizera retroceder  distncia segura e re mota para onde gostava de se esconder. Segurana..., Victoria ponderou. Ali estava a palavra 
chave. 
Jason mantinha os relacionamentos a uma distncia segura de seu corao.
     Ele gostava dos Bryant e, evidentemente, era muito amigo de Susan e Ted. Porm, estas pessoas no ameaavam aquela parte secreta que ele tentava manter escondida 

e... segura...
     Concluiu que estava certa. Em algum momento, no passado, ele havia sido muito magoado.
     Ao chegarem no chal, Victoria sentiu na escada da varanda,. os braos cruzados contra o peito. Jason imitou-a, recostando-se no corrimo.
     - Voc j esteve apaixonado - ela afirmou, num tom suave. Esperava que a tranqilidade da noite lhe inspirasse confidncias.
     Porm, Jason permaneceu calado.
     - Foi muito ferido, por isso mantm as pessoas  distncia, fingindo-se frio e cnico - ela acrescentou.
     O silncio cresceu entre eles, mas Victoria decidiu esperar por uma resposta. Finalmente, ele riu. Um riso seco, sem humor.
     - A est - disse. - Voc j em minha vida toda decidida.
     - Fale comigo, Jason.
     - E o que h para dizer?
     - Diga-me como lidar com esta atrao que existe entre ns. Explique-me de onde ela vem, o que significa e para onde vai nos levar.
     Jason endireitou o corpo e escorregou para junto dela. Encarou-a com intensidade, os traos sombreados pela luz da lua.
     
     55
     
     - Voc sente atrao por mim? - perguntou.
     - sim. E no acontece o mesmo com voc? - ela tornou, desafiando-o.
     - Acontece, sim. Que diabos! J no lhe falei sobre isso quando discutimos aquele beijo que quase nos deixou fora de controle?
     - E o que vamos fazer?
     Jason praguejou baixinho, antes de responder:
     - Nada.
     Victoria sempre fora honesta consigo mesma, quanto aos seus sentimentos, e com os Outros tambm. Por isso, no podia deixar o assunto no ar. Precisava entender 

Jason, descobrir o que ele sentia.
     - Por que no gosta de mim? - perguntou.
     Ele balanou a cabea, exasperado. Por que ela insistia tanto? Por que preocupava-se com o que ele sentia ou deixava de sentir? No entanto, a atitude dela 
lhe 
tocava fundo no corao, de uma maneira que no desejava ser tocado.
     -O que a faz pensar assim? - indagou, tentando manter a frente. - Depois daquele beijo, e de tudo o que lhe disse...
     -Aquilo foi paixo - Victoria interrompeu. - Ou desejo, se preferir. No acredito que voc tenha de gostar de uma pessoa para desej-la. - Embora fizesse tal 

afirmao, no estava muito seguro disto. Para ela, paixo e amor estavam intimamente ligados.
     Uma onda de emoes irrompeu em Jason. Seria to fcil aproveitar-se da vulnerabilidade de Victoria, de sua confuso e ternura. Sabia que, naquele mesmo instante, 

poderia tom-la nos braos, carreg-la at sua cama e fazer amor, apaixonadamente, durante toda a noite, ou at que estivessem saciados.
     A tentao era grande.
     Porm, haveria o arrependimento, no futuro, lembrou a si mesmo. No seria capaz de encarar o desapontamento dela, quando acordasse de manh e se desse conta 

de que no era John que estava ao seu lado... J havia visto aquele olhar uma vez nunca mais queria v-lo de novo.
     - O que quer de mim? - perguntou, ento, a voz rouca. - No posso fazer voltar o relgio e apagar o beijo de ontem. E no vou negar o fato de que a desejo, 

e muito.
     
     
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     A palavra "gostar" e muito fraca para descrever o fogo que sua simples presena acende dentro de mim.
     - Jason... - ela murmurou, ofegante.
     Sua voz chegou at ele como uma carcia. Podia sentir-lhe a urgncia, a necessidade to grande quanto a sua. Ela o queria. Ele a queria. Tudo o que tinha a 

fazer seria toc-la...
     Victoria levantou-se, ento, posicionando-se na beirada do degrau, como se estivesse pronta para correr. Para ele, ou para longe dele. Ainda no sabia.
     - Se "gostar" no  a palavra correta... - disse, hesitante. - Ser que conhece alguma outra?
     - Palavras bonitas... E isso que quer, Victoria?
     - Sim. E quero tudo.
     Jason sabia o que ela queria dizer. Sufocou um gemido de dor e afastou os olhos, virando-se para o lago.
     - Tudo? - perguntou. - No posso lhe dar tudo, apenas uma noite, Victoria. No mais do que isso.
     - Seria o suficiente para voc? - ela perguntou num sussurro.
     Jason levantou-se devagar e encarou-a.
     - Podemos tentar descobrir - disse, estendendo-lhe a mo.
     
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      CAPTULO V
     
     Victoria enrijeceu subitamente, resistindo ao primeiro impulso de tomar a mo que Jason lhe estendia. Por acaso sabia o que estava fazendo?, perguntou-se, 
ento. 
E, mais importante, entendia o porqu?
     Piedade pelo passado dele no era o suficiente para aceitar aquele oferecimento: uma noite e nada mais. Para o bem de ambos, tinha de ter certeza do que esperava 

dele, antes de dar aquele passo. O futuro dependia disto.
     - Pensando no amanh? - ele indagou, um leve sorriso tocando os cantos dos lbios.
     A percepo dele no a surpreendia mais.
     - Sim - respondeu.
     V para a cama, Victoria. E tranque a porta. - Jason afastou-se, comeando a subir os degraus da escada. Vai ser uma longa noite.
     Perturbada, ela se virou quando ele abriu a porta e a fez entrar. Foi para o quarto e trancou-se, ouvindo-lhe os passos na varanda, afastando-se da casa. Mais 

tarde, quando estava pronta para se deitar, foi at a janela e olhou para fora.
     Graas  luz do luar, pde v-lo recostado num dos pilares do ancoradouro, as mos nos bolsos, as pernas cruzadas na altura dos tornozelos. Parecia to.., 
solitrio.
     Mais uma vez, foi invadida pela nsia de correr at ele, tom-lo nos braos e dar-lhe todo carinho que havia dentro de si. Impor tava-se com ele, percebeu. 

Importava-se demais com aquele homem que se mantinha afastado de envolvimentos mas que, ainda assim, compartilhava o desejo que ela prpria sentia.
     Seria possvel que.. estivesse se apaixonando por Jason, de verdade?
     
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     Na manh seguinte, Victria ouviu rudos na cozinha, quando se dirigia ao banheiro, e soube que Jason j se levantara.
     O aroma de caf e bacon frito abriu-lhe o apetite e ela se vestiu apressadamente, fazendo uma expresso de desgosto diante da cala comprida azul-marinho e 

da blusa listrada que teria de usar mais uma vez. Amarrou uma echarpe azul nos cabelos, a fim de deix-los para trs.
     - Bom dia! - cumprimentou, ao entrar na cozinha.
     Jason estava quebrando um ovo na frigideira e olhou-a de relance.
     - Bom dia - respondeu. - Como gosta dos ovos?
     - Bem fritos.
     Victoria serviu-se de suco de laranja e caf e foi se sentar  mesa. Pouco depois, Jason reuniu-se e ela e comeram em silncio. O homem inescrutvel estava 

de volta, ela pensou.
     - A vida fica bem mais fcil quando a gente no se aprofunda nos sentimentos, no acha? - perguntou, num tom filosfico, quando terminaram a refeio.
     - Ainda est brigando com sua conscincia, sobre ontem  noite? - ele tornou, parecendo divertir-se com aquela observao.
     - Nada aconteceu, ontem  noite - Victoria lembrou-o. - Qual  o programa para hoje?
     - Eu vou pescar. Mais tarde, h um almoo na casa de Doug e Millie. - Jason no se preocupou em convid-la.
     - Vou com voc.
     Uma coisa a me de Victoria sempre lhe dissera: nunca se apaixone por um homem teimoso, pois ele a far pensar seriamente em homicdio. Agora, ela comeava 

a compreender a impacincia da me com relao a seu pai.
     Jason encarou-a.
     - Vou deixar algumas iscas preparadas para voc, no ancoradouro - disse.
     Ela tambm podia ser teimosa. Afinal, tinha metade dos gens do pai.
     - No se incomode com isso. Desde que vou ficar junto com voc, podemos usar as mesmas iscas.
     Tentou suavizar a afirmao com um sorriso, mas ele a ignorou, terminando o caf. Sem nada dizer, juntou os pratos e levou-os para a pia. Sem se oferecer para 

ajudar, Victria obser-
     
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     vou-o lavar a loua e deix-la para secar.
     Depois que Jason saiu, ela tomou mais uma xcara de caf, pegou um bon que encontrara dependurado atrs da porta e seguiu-O. F pescando no mesmo lugar do 
dia 
anterior.
     - Vou tentar a sorte desse lado do ancoradouro - avisou, de longe.
     Ele respondeu com um resmungo inaudvel, que poderia significar qualquer coisa. Pegando a vara de pescar e as iscas, ela se afastou para a direita do ancoradouro.
     Trinta minutos depois, a tranqilidade do lugar invadia sua alma, tornando-a capaz de analisar a situao entre ela e Jason com uma certa dose de bom humor. 

Era engraado como atirava-se com tanta inocncia ao acaso. No entanto, o fato de estar se apaixonando depois de tantos anos, por um homem que se recusava a ter 

qualquer envolvimento emocional, no era motivo para risos.
     Ento, o que iria fazer?
     -Vou embora amanh - disse, em voz alta.
     Naquele instante, percebeu que Jason estava logo atrs dela, tendo se aproximado sem ser visto.
     - Hoje - ele corrigiu. -Partiremos logo depois do almoo.
     - Mas no tenho onde dormir, esta noite. O hotel deve estar lotado, devido a uma conveno.
     - Droga - ele murmurou. - Por que no me disse isto antes? Poderia ter ficado com o com o quarto por mais dois dias!
     A evidente irritao dele fez com que toda a tranqilidade de Victoria se evaporasse.
     - Posso, procurar em outros hotis...
     - No. E melhor que fique em minha casa. Tem trs quartos, todos com chave.
     - Est com medo que eu no consiga controlar meus impulsos se'vagens? - ela ironizou. - Vou tentar no me atirar em seus braos, no se preocupe.
     Seus olhos se encontraram e Victoria arrependeu-se de ter se mostrado to agressiva.
     - Continue me provocando - ele avisou, a expresso tensa e frustrada.
     - Desculpe, Jason. - Pousou a mo em seu brao, reforando as palavras. Sabia que o problema que enfrentavam no era nada fcil: como pessoas adultas. tinham 

de equilibrar o 
     
     60
     
     desejo que sentiam com a racionalidade. E, assim como Jason, ela conhecia bem o gosto da solido, da angstia.
     Ele baixou os olhos para a mo dela e esboou um meio-sorriso.
     - Tambm peo desculpas - disse. - Estou de pssimo humor e fico descontando em voc. Sei que no  justo.
     A tenso aliviou um pouco, depois disto. O restante da manh transcorreu mais calmamente, enquanto pescavam e trocavam conselhos sobre a melhor maneira de 
faz-lo.
     Na hora do almoo, foram para a casa de Doug e Millie, onde vrios casais vizinhos estavam reunidos. Cada um havia levado um prato e bebidas e, depois de conhecer 

a todos, Victoria descobriu que estava se divertindo muito.
     Em certo momento, olhou para Jason e percebeu que ele a observava. Num impulso, franziu o nariz para ele, com uma careta amorosa. Ele sorriu, antes de voltar 

a conversar com um dos vizinhos.
     Quando chegou a hora de retornarem para a cidade, Victoria despediu-se dos novos amigos com uma ponta de relutncia. Enquanto atravessavam a clareira,  caminho 

do chal, imaginou como seria bom se ela e Jason fosse casados. Estariam, ento, voltando ao seu lar e poderiam fazer amor durante toda a tarde...
     Aquele pensamento no a abandonou durante a viagem de volta.
     A casa de Jason ficava numa vizinhana tranqila, num bairro residencial, e em nada se parecia com a moradia de um homem solteiro.
     - E muito bonita - ela comentou ao entrar na sala.
     A decorao moderna, mas confortvel e aconchegante, parecia refletir a personalidade de Jason.
     - Seu quarto  por aqui - ele disse, sem demonstrar os sentimentos.
     Abriu a porta do quarto de hspedes, decorado em tons de azul e branco, O banheiro ao lado acompanhava as mesmas cores e motivos.
     - Que lindo! - Victoria exclamou, sincera. - Adoro estas cores.
     Jason olhou em volta do quarto, como se o visse pela primeira vez.
     -... acho que tambm gosto. - Deixou a bagagem sobre uma banqueta, prximo a por-  
     
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     ta do banheiro. - Pensei em andar um pouco, mais tarde. Gostaria de me acompanhar?
     - No, obrigada. Prefiro ficar aqui e ler um pouco.
     Victoria decidiu que ele j tivera que suportar sua companhia por mais tempo do que o necessrio. Assim, o melhor a fazer seria manter-se fora de seu caminho, 

se fosse possvel.
     - Tudo bem. E quanto ao jantar? Conheo um timo lugar, no muito longe daqui.
     - Est certo. Irei, com muito prazer - ela respondeu, educada.
     Jason saiu e, depois de usar o banheiro, Victoria foi para a sala. Inquieta, comeou a andar de um cmodo para o outro, inspecionando o lugar. Foi para a cozinha 

e, da janela, pde ver Jason saindo pelo porto e encaminhar-se para a calada arborizada. Olhou no relgio, vendo que teria cerca de duas horas, at o jantar.
     Voltou para o quarto, tomou um banho longo e relaxante, lavou e secou os cabelos e depois deitou-se, usando apenas a roupa de baixo e cobrindo-se com uma manta.
     Acordou algum tempo, assustada ao ouvir batidas na porta. Sem esperar resposta, Jason abriu-a e espiou para dentro, sem entrar.
     - Voc no respondeu quando chamei - disse. - Est tudo bem?
     - Sim, acho que peguei no sono - ela respondeu.
     Viu que os olhos dele deslizavam pelo seu corpo e percebeu que a manta havia escorregado para a cintura. Embaraada, puxou-a para cima, cobrindo-se at o pescoo.
             -Tarde demais - ele disse suavemente, com um sorriso maroto. Balanou a cabea. -Justamente quando penso que estou me controlando, vejo voc assim... 

E difcil para meu ego aceitar que sou to vulnervel a um corpo feminino quanto um adolescente. - Fechou a porta. - Est na hora de se vestir - avisou, do corredor.
     Victoria levantou-se e parou defronte ao espelho do armrio, examinando-se. Jason havia se interessado pelo seu corpo... Mas, e da? Isto ela j sabia...
     Para o jantar, usou novamente a saia azul, desta vez com urna blusa de renda e um cinto. Era o mximo que podia fazer, a fim de variar o guarda-roupa que trouxera 

para apenas um dia.
     
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     O restante ficava nos arredores da cidade, num tipo de celeiro adaptado. Era muito grande e estava quase lotado, obrigando-os a uma longa espera. Enquanto 
isso, 
ficaram passeando de braos dados, mesmo tendo de desviar-se a todo instante das outras pessoas.
     Victoria sentia-se bem ao lado de Jason, mais segura do que nunca. Todas as atitudes dele, em relao aos vizinhos e amigos,  secretria, e mesmo  casa dele, 

o chal perto do lago... Tudo indicava que Jason era um homem talhado para o casamento e que deveria ter constitudo uma famlia havia muito tempo.
     Quando foram chamados  mesa, esta sensao no a abandonou. Imaginava-o como um amante maravilhoso, embora soubesse que estava se deixando levar pela fantasia.
     - Eu devia-estar convencendo voc a voltar para Paradise Falis - disse, em certo momento.
     - E se no conseguir, o Conselho da cidade vai se zangar com voc?
     - No. Na verdade, ningum sabe o propsito de minha viagem para c. No quis lhes dar nenhuma esperana que pudesse ser frustrada, no caso de voc no concordar 

em participar das comemoraes do centenrio. Queria falar com voc, primeiro.
     - E destruir minhas defesas? - Jason sorriu, com ar cnico. Seus olhos passearam pelo rosto dela, demorando-se na boca, antes que se afastassem. - Voc conseguiu.
      mesmo? - Ela riu, contente. - Ento voc vai?
     - No foi o que eu disse. Estava me referindo s minhas defesas. Voc conseguiu derrub-las.
     Victoria encarou-o. Por um segundo, viu nos olhos dele uma sombra de tristeza, como se estivesse dentro de sua alma. Depois, viu o desejo.
     Entendia, agora, que era ela quem deveria impor o clima e os limites entre os dois. Dependia dela, apenas, estabelecer at onde poderiam chegar. Jason a desejava 

e no estava mais lutando contra isto.
     Terminaram o jantar quase em silncio.  caminho de casa, Jason parecia imerso em pensamentos, e ela quase lhe tocou o brao, querendo lembr-lo de sua presena 

ali. Porm, no fundo, sabia que isto era desnecessrio, pois ele sentia sua presena mais do que nunca.
     
     63
     
     Faltava pouco para as onze, quando chegaram. Ao entrarem, Jason perguntou se ela gostaria de alguma coisa, antes de ir dormir.
     "Sim, voc!", Victoria pensou. Mas, em voz alta, respondeu:
     - No. obrigada. Vou descansar. Meu vo sai s nove da manh.  uma hora horrvel para ir at o aeroporto, no ? Talvez eu deva deixar um carro reservado.
     No. Eu a levo at l - ele disse, inexpressivo.
     - Bem, obrigada, mais uma vez. - Ela hesitou. - Boa noite, Jason.
     - Boa noite.
     Victoria preparou-se para dormir, mas, depois que se deitou, descobriu que no conseguiria pegar no sono. Cansada de virar-se na cama, levantou e comeou a 

andar pelo quarto, sentindo o corao bater pesadamente e uma tristeza profunda envolv-la.
     Porm, por mais que quisesse, no podia procurar Jason. No haveria futuro para eles e, depois de uma nica noite de paixo, apenas o vazio e a angstia lhe 

restariam.
     Voltou para a cama, mas seus olhos recusavam-se a fechar. Finalmente, em desespero, tornou a levantar e, vestindo o robe, foi para a sala em busca de uma revista.
     Jason estava l. Sentado numa poltrona, as pernas estendidas, olhava para a tev, mas sem nada ver. Seus olhos pareciam focalizados em algum ponto dentro de 

si mesmo, profundamente. Ela sentiu a tristeza que ele emanava, a infelicidade intensa e insuportvel. No podia agentar aquilo.
     Porm, se fosse at ele... sabia o que iria acontecer.
     Permaneceu imvel, enquanto uma batalha se desencadeava em seu ntimo. Sabia que deveria voltar para o quarto naquele instante, mas no conseguia. Mas, quando 

esboou um gesto para sair, juntando toda sua determinao, Jason levou a mo  testa, esfregando-a, como se quisesse afastar a dor.
     Vendo aquela mo, Victoria lembrou-se de como ele se esforara, pronto para ajudar uma nova vida vir ao mundo. Subitamente, uma lembrana, ou apenas um fragmento, 

surgiu em sua mente... Jason amparando um bebezinho contra o peito, os braos fortes embalando-o, lgrimas escorrendo-lhe pelo rosto...
     Afastou o antigo pesadelo. Agora, era a realidade que impor tava, e ela sabia que haviam lgrimas, sim, no corao dele. A fonte de seu sofrimento era desconhecida 

para ela, porm visvel em cada linha de seu corpo, em cada trao de seu rosto.
     
     64
     
     Todas as suas dvidas se dissolveram. Queria ficar aquela noite com ele, queria toda a paixo que pudessem compartilhar. Sabia disto por instinto, sem nem 
sequer 
se perder mais em consideraes e perguntas. Jason precisava dela. Ela precisava dele. Era simples, assim.
     Caminhou at ele. Jason a viu, mas nada falou. Ao chegar a seu lado, inclinou-se para ele, os quadris se tocando. Com a mo firme, tocou-lhe os cabelos, os 

dedos enterrando-se nas ondas macias e escuras, enquanto seu corao ansiava por amenizar-lhe todo sofrimento.
     Jason levantou-se e abraou-a. Por um longo tempo, ficaram imveis, apenas olhando-se. Ento, Victoria suspirou e recostou a cabea em seu peito.
     Finalmente, amparando-a pelos ombros, ele a levou para seu quarto. Quando chegaram  porta, Jason parou e encarou-a.
     - Voc tem certeza? - perguntou, a voz enrouquecida pelo desejo.
     Mas Victoria no tinha certeza de nada... nem de seus sentimentos, dos dele, do futuro, nada...
     - No - respondeu. - Mas isto no importa.
     - Se voc ficar... - Ele deixou o aviso no ar.
     No haveria volta, Victoria completou-o, mentalmente.
     - Eu sei - afirmou.
     Jason esperou um instante, ainda, antes de dar um passo e ergu-la no colo. Todo e qualquer bom senso o abandonara, bem como sua fora de vontade. Esperara 

tempo demais para t-la em seus braos.
     "E ela vai embora amanh", lembrou-se.
     Era o preo que teria de pagar, mas ao menos teria a lembrana de um nico momento. Seria sua chance de sentir a textura de sua pele, o sabor de seu corpo. 

Por algumas horas, ela seria toda sua.
     Levou-a a cama e deitou-a, com o cuidado de quem manipula um tesouro. Estava trmulo de desejo, mas se controlou.
     Ento, ela sorriu, quase fazendo desabar toda sua determinao. Era um sorriso que iluminava um caminho longo e escuro, que ele trilhava h muitos anos.
     Havia se mantido afastado de Victoria por dois grande motivos: primeiro, ela pertencia a seu primo. Segundo, por recusar-se a servir de mero substituto a outro 

homem. 
     
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     Porm, agora, fora ela quem o procurara.
     E amanh, como seria?
     Ela partiria e ele prosseguiria com sua vida. Ao menos, teria saciado sua nsia por ela, um desejo que o consumia e que, acreditava, nunca poderia ser aliviado.
     Devagar, comeou a despir-se. Tirou a camisa, os sapatos e, sentando-se ao lado dela, acariciou-lhe os braos. Era o primeiro movimento que fazia para a realizao 

de um sonho. E, raramente, um sonho dura uma noite inteira.
     Victoria percebeu o instante em que Jason pareceu distanciar-se. Erguendo-se, pressionou o corpo contra o peito dele e enlaou-lhe o pescoo. O calor e a fora 

de seu corpo msculo quase a deixou sem flego... Havia tanto tempo que no sentia tal prazer.
     Procurou-lhe os lbios e, depois de um segundo, Jason emitiu um gemido e puxou-a para si.
     Foi um beijo vido. Mas ela queria gentileza. Era frio, exploratrio. Ela queria carinho, intensidade.
     - Jason, por favor... - murmurou.
     - Por favor? - ele repetiu, ofegante. Beijou-lhe os cantos da boca, acariciando-a com os dedos. - Quero fazer tudo o que voc deseja, Victoria. Diga-me o que 

quer...
     - Voc - ela sussurrou, quase em desespero. - Quero voc!
     - E voc me tem. Esperei tanto tempo, sou incapaz de resistir este seu corpo...
     Victoria ergueu a cabea, fitando-o profundamente.
     - Voc odeia admitir isto - afirmou. De repente, toda a certeza a abandonou. Estava errada. Mesmo ardendo de paixo e desejo, afastou-se dele.
     - Odeio admitir uma fraqueza que no posso controlar - ele disse. - E voc  esta fraqueza. E, por Deus, no vou permitir que me deixe, agora.
     Beijou-a, ento, com toda a paixo com que sempre havia sonhado. Victoria pressionou os seios contra o peito nu, sentindo o calor de sua pele atravs do fino 

tecido da camisola. Estava febril, ardendo como uma chama descontrolada. E adorava tal sensao.
     Jason puxou-lhe robe pelos ombros e as alas da camisola. Acariciou a pele, que o fazia lembrar de ptalas de rosas. Tornou a beij-la, muitas e muitas vezes, 

e ela retribua com paixo
     
     66
     e ardor, perdendo-se nas sensaes deliciosas que a invadiam. Quando Jason puxou-lhe a camisola pelos quadris, ela moveu-os, a fim de lhe facilitar o movimento.
     Ele acariciou-lhe as coxas por um longo momento, antes de se tornar mais ntimo. Victoria gemia baixinho, entregando-se ao prazer, pronta para ele. Seus olhos 

se fecharam, enquanto o mundo se tornava muito pequeno, contendo apenas os dois e aquele instante de felicidade que parecia eterna. Inclinou-se para a frente e 
cobriu-o 
de beijos.
     - Venha, meu amor... venha para mim... - pediu, num sorriso. - Venha para mim, agora...
     Foi ento que Jason se imobilizou, afastando-se dela de repente. No instante seguinte, rolou pela cama e levantou-se. Por um segundo, ficou ali, respirando 

com dificuldade. E, quando saiu do quarto, deixou-a to perplexa que sequer podia se mover.
     Jason pegou a camisa, vestiu-a e saiu para a pequena varanda ao lado da sute principal. Recostou-se contra a sacada e olhou para o cu escuro, repleto de 
estrelas, 
tentando se acalmar.
     "Idiota", disse a si mesmo. O que havia esperado? Que ela murmurasse seu nome, num tom apaixonado?
     "Meu amor..." As mesmas palavras que dissera, sete anos atrs. Lembrava-se de cada detalhe daquela noite.
     A chamada viera atravs do rdio da caminhonete onde ele e um antigo colega de escola, que ento era o xerife do condado, estavam discutindo as chances do 
time 
de futebol de Paradise Falis de ganhar o trofu estadual. Seu amigo erguera a mo, de repente, escutando com ateno  chamada.
     - H uma emergncia - dissera Bill, ligando o motor do veculo. - Algum acabou de avisar sobre um acidente no precipcio de Vista Point. Quer ir at l?
     -  claro. - Jason no tinha nada melhor a fazer, exceto ir para casa e, como sempre, ouvir as queixas da me por ele se manter to afastado da famlia. No 

sabia mais como agrad-la e, alis, havia parado de tentar h muito tempo.
     O xerife ligara a sirene e as luzes do carro, enquanto dirigiam-se para a cidade. Em Vista Point, saram da estrada, deparando com os policiais que reportaram 

o acidente.
     - Aqui tem mais uma lanterna - dissera Bili, abrindo o porta-luvas.
     
     67
     
     Caminharam pelo acostamento da estrada, at encontrarem as marcas de pneus no declive.
     - Que droga... - Jason havia murmurado. Avistando o veculo contorcido e destroado, l embaixo.
     - E... - BilI concordara. - Teremos muita sorte, se encontrarmos algum com vida. Veja, h pelo menos cinco centmetros de neve nas marcas de pneus. Isto quer 

dizer que o acidente ocorreu h horas... quatro horas, mais ou menos.
     Com cuidado, comearam a descer a encosta coberta de neve. Pela janela de trs do carro, puderam ver duas pessoas no banco da frente. BilI fora para o lado 

do motorista, enquanto Jason lutava para se aproximar do lado do passageiro.
     - Ah, meu Deus... - Bili ofegara, ento. - Jason, no olhe...
     Mas fora tarde demais. Ele j havia visto quem estava no carro: pela janela lateral quebrada, deparara com o rosto de Victoria.
     Uma dor profunda havia explodido, do fundo de sua alma. Ela estava imvel e mortalmente plida, exceto por fio de sangue que secara em seu pescoo, num ferimento 

provocado por um caco de vidro.
     - Victoria - ele havia sussurrado, temendo no ser possvel acord-la. - Victoria, acorde, minha querida.
     Abrira a porta do carro e, com apenas um olhar na direo de seu primo, soubera que nada mais poderia ser feito para ajud-lo. Estendera a mo e tocara o pescoo 

de Victoria.
     - Vou pedir ajuda. Vamos precisar de um guincho para tir-los daqui, talvez at um guindaste. Ela est...? - Bill hesitara.
     - No sei. No consigo sentir o pulso.
     Bill praguejara baixinho, antes de comear a subir a encosta.
     - Vamos l, querida. - Jason no desistia, batendo de leve nas faces de Victoria, tocando-lhe as mos geladas, que seguravam as abas do casaco, protegendo 
a 
barriga intumescida.
     Continuara a falar, implorando pai-a que ela acordasse, mas o tempo passava e ela no se movia. Um misto de desespero e fria  invadira, ao dar-se conta de 

que talvez ela nunca mais despertasse. O destino no podia castig-lo daquela m Ele no permitiria!
     Sacudiu-a com fora, ento, fazendo-a balanar como uma boneca.
     - Victoria! Qu diabos, acorde! Voc no pode morrer!
     
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     Nada.
     Sacudiu-a novamente, tentou encontrar-lhe o pulso, mas nada acontecia.
     - No. Voc no vai morrer, no vou deixar que morra e me abandone para sempre!
     Num gesto desesperado, esbofeteou-lhe o rosto, com fora. Os olhos dela se abriram.
     - Victoria - ele havia murmurado, abraando-a, enquanto lgrimas de alvio lhe corriam pelas faces.
     Uma alegria indescritvel surgira no rosto dela.
     - Ah, meu amor - dissera, num fio de voz. - Meu amor... pensei que tivesse morrido... - Mas havia parado, de repente, confusa. At perceber que no era seu 

marido que ali estava, abraando-a, mas apenas o primo, que se parecia tanto com ele...
     Jason agarrou com fora o balastre da sacada. Nunca mais se esquecera o olhar de desapontamento que vira no rosto de Victoria, depois daquela descoberta terrvel. 

Era um olhar que o perseguiria, enquanto vivesse.
     Isto, e o fato de saber que era ele quem deveria ter morrido no acidente, e no John.
     Seu primo havia insistido para que os acompanhasse, mas ele se recusara. No suportava estar ao lado de Victoria, sabendo que ela esperava o filho de um outro 

homem. Mesmo que este homem fosse John, a quem considerava mais que um irmo, no era capaz de testemunhar toda aquela felicidade.
     Se tivesse concordado em acompanh-los, se estivesse dirigindo o carro, teria morrido no lugar daquele a quem Victoria amava.
     Cruzou os braos, querendo afastar as lembranas que tanto o faziam sofrer. Ento, sentiu Victoria ao seu lado, pressionando o corpo macio e que contra o seu, 

fazendo-o abra-la como se fosse a coisa mais natural do mundo.
     - Est frio, aqui - ela queixou-se, beijando-lhe o pescoo. Jason no podia acreditar que ela o procurasse, depois da maneira como a deixara.
     - Volte para a cama - ordenou, a voz lhe soando mais rouca do que pretendia. Diabos, nunca conseguia controlar-se quando ela estava por perto. Lutou contra 

o desejo e a dor que o invadiam.
     - Voc ficou frio e distante novamente - ela disse, abraando-o. - Por qu, Jason? Por que me deixou?
     - Pois sou eu quem pergunta: por que as mulheres sempre pensam que alguns beijos lhes
     
     69
     
     do o direito de invadir a priva cidade de um homem? - ele disparou. Depois, respirando fundo, baixou os olhos para ela.
     Seu rosto, iluminado pelo luar, era como o de um anjo. Jason sabia o quanto sua pele era macia, suave. J conhecia o sabor de seus lbios, provara o gosto 
de 
seu corpo. Isto deveria lhe bastar. A curiosidade que o perseguira durante anos estava satisfeita.
     Mas no estava, admitiu. Nem se tivessem feito amor, no estaria. Sempre iria querer mais, dela, jamais ficaria totalmente saciado.
     Num misto de raiva e desejo, quis afastar-se dali e esquecer de uma vez as sensaes que Victoria lhe despertava, desde a primeira vez que a vira, uma semana 

antes de se casar com seu primo.
     John, seu primo... Ela o amava. John era o garoto de ouro, um homem atraente, gentil, bondoso. Enquanto ele, Jason, sempre fora o rebelde, o garoto difcil, 

a ovelha negra da famlia.
     Afastou-se dela bruscamente, tentando manter o controle que ameaava desabar.
     Victoria permaneceu imvel por um instante, O que havia acontecido?, perguntava-se. O que esperava dele, afinal. Que se apaixonasse de repente e lhe revelasse 

seus sentimentos mais ntimos? O desapontamento que sentia, agora, era to imenso quanto a paixo de minutos atrs.
     Ficou ali por algum tempo, admirando a noite e esperando que o peso em seu corao se aliviasse. Estavam de volta  estaca zero, concluiu. Mas queria mais, 

dele e para ele. Jason merecia muito mais do que apenas uma noite de paixo.
     - V se deitar, Victoria - ele repetiu, a voz dura e firme, agora.
     Suas defesas estavam erguidas, novamente. O momento em que quase lhe tocara a alma havia passado. Com lgrimas nos olhos, Victoria se afastou na direo da 

porta.
     - Boa noite, Jason - disse, baixinho.
     Foi para seu quarto, deitou-se e apagou a luz. Pela primeira vez, em muitos anos, lembrou-se de como uma cama podia ser o lugar mais solitrio do mundo.
     
     70
     
     
      CAPTULO VI
     
     
     Victoria deixou a porta bater atrs de si, quando entrou em sua casa, em Paradise Falis. A primeira coisa que queria fazer era perguntar a Saily Winetski Houston, 

sua melhor amiga e coordenadora da campanha em que se elegera prefeita, sobre Jason. Sally conhecia todo mundo, na cidade. Ou melhor, sabia de tudo o que se podia 

saber, sobre todos da cidade.
     E ela poderia lhe falar sobre a vida anterior de Jason. Depois de conhec-lo como realmente era, Victoria queria entender as foras que o transformaram naquele 

indivduo solitrio que ele aparentava ser.
     Tambm imaginava como seria a mulher que ele amara. Talvez Saily pudesse lhe dar os detalhes. O caso entre eles certamente fora apaixonado e a ruptura muito 

amarga, para que Jason mantivesse dentro de si lembranas to dolorosas.
     Dava-se conta, agora, de que nutria uma profunda averso pela desconhecida que agira to mal com ele. Arruinara a vida de um homem que possua uma capacidade 

imensa de amar e uma ternura que s esperava a chance certa para emergir.
     Mesmo sabendo que no tinha qualquer esperana de ser amada por ele, queria que ele encontrasse a felicidade que merecia.
     Com lgrimas nos olhos, reconheceu que no fora muito gentil com Jason, quando o conhecera. E durante seu casamento estava envolvida demais com a prpria felicidade 

e com as novas responsabilidades de sua vida para dar muita ateno ao primo de John.
     Na verdade, tinha de admitir que no se importara com o fato de Jason ter permanecido afastado, em seus primeiros anos de casamento. 
     
     71
     
     Como muitas recm-casadas, tinha cime do antigos relacionamentos do marido, mesmo com seu melhor amigo.
     Mais tarde, estivera to ocupada com a prpria viuvez, tentando superar a tristeza com bravura, que nem sequer pensara nele. Lembrava-se de que havia sido 
Jason 
quem tomara todas as pro vidncias, naqueles dias terrveis que se seguiram ao acidente, estando sempre por perto, solcito e indispensvel. Mas ela no pensara, 

num instante sequer, na dor que ele prprio sentia. E envergonhava-se disto.
     Tocou o rosto, enquanto uma frgil recordao surgia-lhe na mente: lgrimas quentes molhando sua face, enquanto um homem de olhos azuis e cabelos escuros chorava 

sobre ela. Balanou a cabea, sem entender o fragmento daquele antigo pesadelo que sempre a acompanhava.
     Deixou a bagagem no meio da sala e correu para o telefone. Depois de discar o nmero do escritrio de Saily, na imobiliria, passou os olhos pelo ambiente 
conhecido, 
embora seus pensamentos continuassem em Raleigh.
     Naquela manh, quando Jason a levara para o aeroporto, no trocaram mais que algumas poucas palavras. Quando chegou a hora de embarcar, ela finalmente lhe 
perguntou 
se iria para Paradise Falls, participar das comemoraes do centenrio.
     - Acho que no seria uma boa idia - ele respondera.
     Percebendo que no adiantaria insistir, ela deixara o assunto de lado, agradecera por tudo e fora para o porto de embarque.
     A recepcionista da imobiliria atendeu ao telefone e Victoria pediu para falar com Saily, que, segundos Depois, estava na linha.
     - Estou contente em saber que Sua Excelncia j voltou. Como foi tudo?
     No muito bem Victoria admitiu. - Quer almoar comigo?
     -  claro que sim. Estou louca para saber das novidades. No Asher Inn, daqui a uma hora?
     Victoria concordou e desligou. Levou a mala para seu quarto, separou as roupas que iria mandar para a lavanderia e guardou o restante. Vestiu, ento, uma saia 

de linho cru e uma blusa cor-de-rosa.
     Depois de pronta, foi at a poltrona prxima  janela e sentou-se, com um suspiro cansado. Ficou admirando a paisagem, to conhecida de sua cidade, encravada 

no meio das montanhas.
     
     72
     
     No centro da praa central podia avistar o prdio do Tribunal, sentindo um orgulho justificado pela restaurao que havia sido feita, graas aos seus esforos.
     Alis, aquele havia sido um de seus objetivos de campanha: restaurar o antigo prdio, devolvendo-lhe a majestade e o estilo antigo, tanto quanto fosse possvel.
     No incio, o problema maior havia sido arranjar dinheiro. Encontrara a soluo cobrando um imposto extra para cada quarto que fosse alugado na cidade, e sobre 

a comida servida nos restaurantes.
     A tarefa seguinte era descobrir por que a nova estrada no estava ligada com a rodovia interestadual. Havia uma nica via de entrada e sada para Paradise 
Falis 
e, quando o inverno era muito rigoroso, a neve podia deixar toda a cidade isolada.
     Suspirou, mais uma vez, sentindo uma agradvel segurana envolv-la. Era bom estar em casa, pensou. Parecia-lhe que estivera fora por muito tempo, numa jornada 

perigosa e apavorante e que, graas a Deus, retornara s e salva.
     Segurana, tranqilidade... Seria isso que a prendia naquela casa?
     John a levara para l como uma recm-casada de vinte e dois anos. O lugar pertencia  famlia dele por mais de cem anos.
     Deixando o olhar vagar pelas montanhas, Victoria admitiu que amava aquela cidade. Nascera ali e, com catorze anos, havia se mudado, com a famlia, para Nova 

York, onde fizera a faculdade. Mas foram anos em que sentira saudade, ansiando por retornar. Ali era o seu lar, o lugar a que pertencia.
     Olhando no relgio, viu que era hora de sair e encontrar Sally no restaurante. Pegou a bolsa e correu para o carro.
     A amiga j a esperava na mesa de sempre.
     - Bem, ao menos estou vendo que voltou inteira - Sally brincou, examinando-a de cima a baixo.
     Victoria riu.
     - Achou que eu no voltaria?
     - Com Jason por perto, ningum tem certeza... - SaIly franziu a testa, pensativa. - Pensei que voc estaria de volta ontem.
     Victoria sentiu o rosto arder e rezou para que a amiga no percebesse.
     - Mudei meus planos - disse.
     
     73
     
     - Ento passou o fim de semana com Jason - Sally concluiu. Victoria fez uma ligeira careta.
     - Como consegue perceber as coisas to depressa? - perguntou, exasperada.
     - Acho que tenho uma ndole desconfiada. Ento, vai me contar tudo ou vou ter de ficar perguntando?
     A garonete veio atend-las e, enquanto Saily fazia o pedido, Victoria reparou que ela tinha os mesmos olhos de Jason. Depois que a moa se afastou, SaIly 
inclinou-se 
sobre a mesa, fitando-a com curiosidade.
     - Estvamos falando sobre Jason, no ? Como vai o meu querido primo?
     - Bem, eu acho. - Victoria respirou fundo, antes de prosseguir. - Fomos para um chal que ele tem, perto de um lago. Voc sabia disto?
     - No. V devagar e conte-me tudo.
     -  muito bonito. - Victoria descreveu o chal, os arredores, os vizinhos e amigos. - Passamos horas bem agradveis, pescando e conversando. Foi muito divertido.
     - Humm... timo. - Um brilho surgiu nos olhos de SaIly, enquanto Victoria tornava a ruborizar. - Jason precisa mesmo de descanso - prosseguiu. - Sempre achei 

que ele trabalha demais, mesmo quando era mais jovem. Nossas famlias eram bastante unidas, naquela poca, e me lembro de que Jason mostrava-se srio demais, em 

determinados assuntos, sempre falando em vencer na vida.
     Sabendo que no adiantaria mais fingir desinteresse, Victoria entregou os pontos.
     - Fale-me sobre ele - pediu.
     Saily encarou-a por um instante, antes de balanar a cabea, concordando.
     - Deixe-me pensar... Havia uma antiga fofoca sobre a famlia dele... Ah, j me lembrei. A me de Jason esteve apaixonada pelo pai de John, durante algum tempo.
     - Eu no sabia disto.
     - Bem, no  o tipo de assunto que se discute em reunies de famlia, mas ouvi mame comentar com minha tia, certa vez. Como sou muito intrometida, quis saber 

de todos os detalhes.
     - O que aconteceu?
     - Jonathan e Claude eram primos em primeiro grau, e muito parecidos, naturalmente, pois
     
     74
     
     seus pais eram irmos gmeos idnticos. Voc deve ter visto fotografias antigas dos avs de John, no ?
     Victoria assentiu e comentou:
     - Eles eram bem bonitos.
     E verdade. Os dois primos cresceram aqui em Paradise Falis e mame confessou que tinha uma certa "queda" por eles, como todas as outras garotas da poca. Todos 

os homens da famlia Broderick tm cabelos escuros e aqueles incrveis olhos azuis.
     A imagem de Jason surgiu na mente de Victoria, no instante em que mergulhara os dedos por entre seus cabelos espessos e macios.
     Saily continuou:
     - Ento, Jonathan e Claude cresceram e foram para a guerra. E, quando voltou, Jonathan trouxe uma esposa com ele.
     - A me de John - Victoria interrompeu. - Conheo a histria de como se conheceram, num baile.
     A sogra de Victoria havia tornado a se casar um ano depois da morte de Jonathan e agora morava no Texas, com o segundo marido. Enquanto estivera casada com 

John, Victoria a visitara algumas vezes.
     - Sim, mas havia uma garota com quem ele namorava, antes de partir, e que ficara esperando por sua volta. E quando ele retornou, trazendo uma esposa a tiracolo, 

ela se casou com o primo Claude, um ms depois.
     - Ah, no... - Victoria suspirou, percebendo a tragdia.
     - E isso mesmo. Algumas pessoas se perguntavam se Myra algum dia conseguiu esquecer seu amor por Jonathan. O filho dela nasceu cinco meses depois de John.
     - E Claude sabia dos sentimentos de sua esposa por Jonathan?
     - No sei. - Sally pensou por um instante e deu de ombros. - Mas, se sabia, aparentemente isto no o incomodava. Foram casados por mais de trinta anos.
     - , parece que foi um bom casamento. - Victoria podia sentir o olhar curioso de Saily.
     - Quando  que vai me contar o que realmente aconteceu naquele chal, Victoria? - a amiga perguntou, finalmente.
     - Nada aconteceu.
     Saily no parecia convencida, mas resolveu no insistir.
     
     75
     
     - Quando nossas famlias se encontravam - prosseguiu - era Jason o nico quem me dava ateno. Sabia que foi ele quem me ensinou a subir em rvores? Eu gostava 

muito dele. Mais do que... - Interrompeu-se, pressionando os lbios.
     - Mais do que de John? - Victoria perguntou, surpresa.
     - Sempre achei os dois timos - Sally desconversou, pegando o garfo e atacando a salada que a garonete trouxera.
     - Mas...
     - Bem, John costumava ler para mim, mas era Jason quem me levava para procurar ninhos, ou para subir em rvores e pegar mas.
     Victoria visualizou Jason, mais jovem, levando a prima criana para conhecer seus lugares preferidos. No ficou surpresa em saber que ele era to bom para 
Sally.
     - J entendi - disse. - Voc e Jason eram os rebeldes da famlia. Ele me mostrou a orelha furada.
     Sally riu.
     - Eu me lembro disto! Foi uma confuso naquela casa. Myra quase teve um ataque. Mas Claude defendeu o filho e disse  esposa que o deixasse em paz. - Sorriu, 

pensativa. - Jason no era to mau quanto diziam. E como poderia deixar de ser rebelde, se a me estava sempre comparando-o com o primo que, de acordo com ela, 
nunca 
fazia nada errado? Mas John tinha uma personalidade diferente, aceitava tudo de bom grado e nunca causou um minuto de ansiedade aos pais.
     - Sim... Ele tinha uma imensa considerao com as pessoas. - Victoria sentiu lgrimas nos olhos. Estava triste por John, por Jason ou por si prpria? - John 

amava o primo, sentia falta de sua companhia. Mas, depois que nos casamos, Jason nunca mais apareceu.
     Saily observou-a por um instante.
     - Jason sabia o que estava fazendo - afirmou. - Solteiros e casais nunca combinam muito bem. E, com certeza, voc  bastante esperta para entender por que.
     Victoria lembrou-se da urgncia do desejo que irrompera entre ela e Jason. Ele a havia tocado como se h muito tempo desejasse faz-lo...
     - Sim,  claro - murmurou.
     - Gostaria de saber que ele encontrou a felicidade que merece.
     -  verdade - Victoria admitiu. Aprendi algumas coisas sobre Jason, neste fim de semana.  
     
     76
     
     Ele possui um grande amor para dar, devia estar casado e ter filhos. Ah, Sally, no te contei sobre a emergncia pela qual passamos...
     Victoria passou a relatar a experincia emocionante que tivera ao lado dele, quando Susan estivera prestes a dar  luz no escritrio. Quando concluiu, viu 
que 
Sally tinha os olhos marejados de lgrimas.
     - Eu sempre soube que Jason tinha um corao enorme - disse a amiga. - S o que ele precisa  de uma mulher que o faa ver isto, tambm. Mas ela ter de ensin-lo 

a confiar nas pessoas, primeiro.
     - Por que pensa assim?
     - Jason deve ter sofrido uma grande desiluso, no passado - Sally respondeu. - No conheo a histria, mas ele parece cauteloso demais no que se refere a envolvimentos, 

amor e casamento, no acha?
     - Ele realmente amou algum, algum dia - Victoria concordou. - Ele prprio admitiu, e disse que no havia dado certo.
     - Ah, isto explica tudo.
     - Explica o qu?
     - A atitude dele, naturalmente. To cnica e distante. - Sally levantou-se, sorrindo para a amiga. - Preciso ir embora. Ainda tenho de passar em casa e assar 

um bolo para a reunio da Sociedade Histrica. Tem certeza de que no quer ir, hoje  noite?
     - No, obrigada. - Victoria tambm se levantou.
     Emoes tumultuadas e desconhecidas a envolviam, tornando-a incapaz de pensar direito. Mas, de uma coisa tinha certeza: odiava saber que Jason havia sido ferido 

e magoado por algum.
     O restante do ms de junho passou na mesma rotina de sempre, entre almoos e jantares de negcios, reunies do Conselho e problemas para serem resolvidos. 
O 
tempo estava quente e ensolarado, e Victoria aproveitava as horas de folga para permanecer no jardim o mais que podia, cuidando de suas flores e da pequena horta 

que cultivava.
     Julho chegou com uma lufada de ar quente. As pessoas andavam irritadas com o calor, e qualquer conversa mais animada acabava se transformando numa discusso 

grave.
     Na noite da reunio do Conselho, marcada para as sete horas, todos os membros se acomodavam em seus lugares, quando a porta dos fundos se abriu. Victoria ergueu 

os olhos do dis-
     
     77
     
     curso que iria iniciar e quase caiu de costas. Jason entrara e sentara-se numa das ltimas fileiras.
     Tentando se acalmar, ela respirou profundamente, e com a voz um tanto trmula abriu a reunio. Quando deu a palavra aos membros do Conselho, uma mulher levantou-se. 

Foi at o microfone, disse seu nome e comeou:
     - E a terceira vez, neste ano, que me apresento perante aos senhores com a mesma reivindicao. Como todos sabem, graas aos esforos dos pais de alunos, foi 

comprado um terreno ao lado da escola primria para que pudssemos instalar um playground. A prefeitura nos garantiu que, se tivssemos o terreno, se encarregaria 

da compra e instalao dos equipamentos do parque. No entanto, at agora, nada disto aconteceu.
     Ao terminar seu discurso, a mulher encarou os presentes com uma expresso determinada, indicando que no sairia daquela sala sem uma resposta.
     - Obrigada, Mary Beth - Victoria disse, sorrindo. - Creio que o sr. Wagner tem um relatrio a este respeito.
     O sr. Wagner, contador aposentado que agora atuava como membro do Conselho, explicou que devido a uma urgncia na reforma de outra propriedade, os fundos reservados 

para a compra dos equipamentos no estavam mais disponveis. No entanto, o caso permanecia no planejamento geral do municpio.
     Como era de se esperar, a audincia vaiou o pobre sr. Wagner. 
     Victoria exigiu silncio, batendo com o martelinho de madeira na mesa e, depois de muito custo, conseguiu restaurar a ordem. 
     A reunio prosseguiu e, depois de quase trs horas, os nimos estavam bem mais acirrados. Muitos j haviam se retirado, restando apenas aqueles interessados 

nos tpicos que ainda no haviam sido discutidos. Jason continuava ali.
     Victoria chegou a pensar que ele estava esperando por ela, mas talvez fosse vaidade demais de sua parte. Devia ser apenas curiosidade, concluiu, de ver como 

ela se saa ao desempenhar suas funes de prefeita.
     Olhando na agenda, viu que chegavam ao ltimo item.
     - Temos algum relatrio sobre a rodovia de Paradise Falis? - perguntou.
     O advogado encarregado de investigar o motivo para a demora do incio da constru -
     
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o da rodovia informou que no havia nenhuma deciso do Departamento de Estradas estadual.
     - Disseram que ainda esto estudando o caso - concluiu
     Depois de meia hora de discusses inteis, ficou decidido que Victoria iria liderar uma delegao que exigiria providncias imediatas junto aos rgos estaduais, 

para a construo da rodovia.
     - Coloco em votao que a Prefeita Victoria Broderick v at a capital como representante de Paradise Falis e que entre em contato com os responsveis pela 

construo da estrada - o sr. Wagner sugeriu.
     Todos votaram a favor e, ao olhar para Jason, Victoria viu que ele sorria.
     - E o que esperam que eu faa? - perguntou aos membros do Conselho.
     - Que descubra por que a construo da nova estrada ainda no se iniciou, como nos prometeram h trs anos - um deles respondeu.
     Depois que o assunto foi encerrado, Victoria indagou se algum queria fazer uso da palavra. Foi ento que, para sua surpresa, Jason ergueu a mo;
     Devagar, ele se levantou e dirigiu-se ao microfone, onde disse seu nome, antes de prosseguir:
     - Sou um antigo residente de Paradise Falis. - Sorriu. - E aposto que alguns de vocs ficaram bem satisfeitos, quando me mudei daqui. - Todos riram da brincadeira, 

e ele continuou, srio: - Estive aqui, ouvindo os problemas da cidade, e isto me deu mais uma vez a certeza de que uma pequena comunidade  o melhor lugar para 
se 
crescer. Ela nos fornece um sentido de valores e de permanncia, difcil de se encontrar nos grandes centros. - Fez uma pausa, vendo que a audincia prestava a 
maior 
ateno s suas palavras. - Bem, se o Conselho estiver' interessado, tenho uma proposta. Um amigo meu, que  arquiteto, idealizou um playground para uma escola 
prxima 
a minha casa. So equipamentos simples, que os prprios pais de alunos podem montar. Se quiserem, consigo o projeto de graa e farei uma doao dos materiais, contanto 

que os pais se comprometam a encarregarem-se da montagem.
     Um sussurro de aprovao percorreu a sala.
     - J ouvi falar sobre isto! Mary Beth exclamou. - Houve uma reportagem na tev, mos-
     
     79
     
     trando como se pode montar o play ground com pouco custo. E maravilhoso!
     Uma nova discusso se iniciou e, depois de algum tempo, ficou decidido que Mary Beth e Jason coordenariam a instalao do parque, sob a superviso do arquiteto.
     Sem mais apartes, Victoria deu por encerrada a reunio. Enquanto recolhia seus papis, viu que um grupo de mes rodeava Jason, todas interessadas em saber 
detalhes 
sobre a construo do playground.
     Pegou a pasta e saiu pela porta lateral, entrando em seu escritrio. Sentou-se  escrivaninha, cansada e esforando-se para controlar as emoes que se revolviam 

em seu ntimo. No estava preparada para encontr-lo, pensou. Como poderia tornar a encar-lo, depois daquela noite?
     Parecia mais difcil agora, do que na manh em que partira de volta para casa. Ainda no tinha certeza de seus sentimentos em relao a ele e, talvez, ele 
tambm 
estivesse em dvida.
     Isto explicaria sua presena ali?
     Teria concordado em comparecer s festividades do centenrio, que se dariam em conjunto com a comemorao de 4 de Julho, a data nacional, apenas para v-la?
     Seu corao bateu com mais fora, deixando-a quase sem flego. Mas tinha de se controlar! Afinal, era a prefeita daquela cidade, tinha uma grande responsabilidade 

nas mos e no podia se deixar levar pelas emoes.
     Ouviu batidas na porta e no teve dvida de quem seria. De vagar, levantou-se e foi abri-la, embora no tivesse a mnima idia do que iria dizer.
     Os olhos azuis escuros a examinaram, como se quisessem ter certeza de que ela era real. Porm, era o mesmo olhar duro, frio e distante. Bem diferente do que 

ela imaginava encontrar. Esperava v-lo com a mesma expresso de doce ternura que existira naquela noite, mas sabia que isto era um sonho impossvel. Aquele era 

o Jason de sempre: inescrutvel, cnico e distante.
     Estaria com medo que ela lhe fizesse alguma cobrana, por causa da noite em que quase fizeram amor? Bem, se fosse isto, estava muito enganado. No lhe exigiria 

nada, no lhe pediria nada.
     - O que est fazendo aqui? - perguntou, afinal, quebrando o silncio.
     
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      CAPTULO VII
     
     -Isto  maneira de receber um benfeitor?
     - Jason perguntou, com a expresso falsamente ofendida.
     Victoria riu.
     - Desculpe. Mas fiquei surpresa com sua presena aqui. Encontrei seus pais ainda ontem e eles no me disseram que o estavam esperando.
     - Acho que j estou bem crescidinho para ter de avisar meus pais cada vez que me movimento - ele retrucou, com um sorriso irnico.
     Victoria no respondeu  provocao. Se Jason imaginava encontrar brigas e recriminaes por no t-la procurado mais, desde que viera embora, iria ter uma 

surpresa.
     - Seu presente  cidade foi muito generoso - disse. - Espero que este gesto signifique que pretende reatar os antigos laos.
     - E voc se transformou numa excelente poltica - ele observou. - Mas, no. Nada de laos. S pensei em fazer uma doao  cidade onde nasci e, com isso, conseguir 

uma boa deduo de impostos. Assim, torno-me um heri e pago menos impostos - concluiu, cnico. Fez uma pausa e juntou: - Que tal tomarmos um caf?
     Victoria hesitou.
     - Est com medo do que as pessoas possam dizer, vendo a prefeita em companhia do renegado? - ele perguntou, ento, com um sorriso frio.
     - No. So as minhas reaes que me preocupam - ela confessou. - Tenho uma fraqueza por rebeldes e renegados, sabia?
     O ar tornou-se pesado e tenso, de repente. Ela percebeu que Jason respirava, tentando se 
     
     81
     
     controlar, e ficou satisfeita por t-lo provocado. Por instinto, sabia que aquela era a maneira correta de lidar com ele.
     - Posso ficar tentado a me aproveitar desta fraqueza - Jason disse, fitando-a com intensidade.
     - E talvez eu fique tentada a permitir que o faa. - Victoria fechou as gavetas da escrivaninha e pegou a bolsa. - Ento, vamos?
     Saram para o estacionamento, onde ela pegou seu carro e Jason a seguiu, com o veculo que alugara ao chegar na cidade. Dirigiram-se  lanchonete e pediram 

caf.
     Enquanto esperavam, Victoria pousou os braos na mesa, com a inteno de lhe perguntar se estava considerando a proposta de trazer a fbrica para Paradise 
Falis, 
mas achou melhor esperar um pouco mais. Primeiro lhe daria tempo para ver as mudanas que haviam ocorrido ali e se convencer de que seria um bom negcio. Alm disso, 

tinha um plano.
     - Vai precisar de uma barba - disse. - Do contrrio, pode at ser preso por violao dos bons costumes.
     - Por qu? Por acaso voc baixou uma lei obrigando a todos os homens a usarem barba?
     - A partir de quarta-feira, todos na cidade devero se vestir como os pioneiros fundadores de cem anos atrs - ela explicou.
     - Bem, sendo assim, vou ter de procurar um traje adequado.
     - Isso mesmo. Temos vrias atividades planejadas e muita diverso, at sbado. Sero cinco dias de comemoraes, do 4 de Julho e do Centenrio.
     - Sim, lembro-me de que voc mencionou as festividades.
     Seus olhos se encontraram, trazendo a ambos outras lembranas que estavam ainda bem vvidas. Victoria quase podia sentir as mos dele em seu corpo, os lbios 

quentes e macios...
     - No faa isso - ele murmurou, rouco.
     - O qu? - ela ofegou, a boca ressecada.
     A garonete trouxe os pedidos, quebrando o instante de magia.
     - Bem, sobre as festividades - Victoria retomou o assunto, com um suspiro de alvio-, teremos concursos, gincanas e muitas brincadeiras.
     Jason emitiu um suspiro audvel, quase um gemido.
     Ela parou de falar, sentindo o rosto ruborizar violentamente, mas esforou-se para prosseguir:
     
     82
     
     - No sbado, haver um desfile nas ruas centrais, com todos os representantes da indstria e comrcio...
     Jason pousou a mo sobre a dela, interrompendo-a.
     - No quero que fique nervosa com minha presena, Victoria. No vou embara-la diante da cidade.
     - Mas talvez seja eu mesma quem acabe causando embaraos para ns dois - ela sugeriu, um tanto frio.
     Jason imaginara que, com a distncia e o tempo, ela pudesse se arrepender do que acontecera naquela noite. No entanto, podia sentir-lhe a tenso. Ela ainda 

o queria.
     E o mais surpreendente era que se mostrava amigvel. Seus olhos.., pareciam quentes, convidativos. Mas no lhe fazia exigncias, nem cobranas, o que era diferente 

de tudo o que ele sabia sobre as mulheres.
     - O que aconteceu em minha casa no se repetir - disse. - Foi um impulso momentneo e creio que somos adultos o bastante para lidar com isso. Queria v-la 

a ss, antes que sejamos obrigados a estar juntos numa sala com uma legio de parentes e conhecidos, e avis-la de que no pretendo iniciar um caso amoroso com 
voc, 
numa cidade pequena como Paradise Falis.
     - Por que no deixa que eu decida se quero ou no ter um caso? - ela indagou, ligeiramente irritada.
     - Bem, talvez eu no tenha me expressado direito. - Jason sentiu que estava complicando tudo. - Quero dizer que sei muito bem que no tenho nenhum direito 
sobre 
voc, ou voc sobre mim, por causa de uns poucos beijos.
     - Muito obrigada - ela disparou, irnica.
     Diabos, estava ficando cada vez pior, ele pensou.
     - Oua, estou tentando lhe assegurar que...
     - No preciso que me assegure nada, Jason. Sou uma mulher adulta e capaz de controlar minhas emoes e minha libido sem sua ajuda. E jamais tive qualquer inteno 

de ter direitos sobre voc. Ou o contrrio.
     Jason observou-a. Ela parecia zangada a ponto de lhe acertar um soco bem no meio do nariz.
     - Bem, ento como quer que eu aja? - perguntou. - Como se estivssemos tendo um caso trrido?
     - Sim.
     Victoria quase riu, ao ver o choque estampado no rosto dele. Apanhara-o direitinho, afinal.
     
     83
     
     - Voc no deixa passar nada, no ? - ele disse, depois de digerir a surpresa.
     - No.
     - Pois bem. Ento, o que quer que acontea entre ns?
     - Quero entender por que no podemos ter uma vida normal, como todo mundo. Somos ambos livres, no devemos satisfaes a ningum. Por que no podemos nos ver 

e ficar juntos, se quisermos?
     Era evidente que Jason j havia pensado naquilo pois a resposta foi rpida e segura:
     - Porque no quero me envolver, Victoria. Voc mesma disse que sou um solitrio.
     - Mas no devia ser - ela retrucou, com suavidade.
     Ele lhe enviou um olhar frio, querendo restabelecer a distncia que os separava.
     - E assim que quero continuar vivendo - afirmou. Victoria pensou na paixo que haviam compartilhado. Lembrou-se da alegria que sentira, ao v-lo entrar na 
sala 
de reunies. Era como se uma luz a envolvesse, de dentro para fora. E devia haver um motivo para isso.
     De repente. descobriu que estava muito cansada.
     - Tenho que ir embora - disse. - Por que no aparece para jantar comigo, amanh? Posso convidar Sally e o marido, sabe o quanto ela gosta de voc. Acho que 

tambm tem uma fraqueza por rebeldes.
     Ele sorriu.
     - Algumas mulheres parecem no entender que  impossvel domar um rebelde. - Suas palavras soaram como um aviso.
     - Diga a seus pais para irem, tambm - ela juntou, fingindo no perceber a observao.
     - No estou na casa de meus pais. Achei que ficaria mais  vontade num hotel, e no os incomodaria.
     Saram juntos cia lanchonete e Jason levou-a at o carro. Depois de se despedirem, Victoria se afastou, mas ele ficou ali por mais um instante, pensando.
     Era uma idia maluca, mas se tivesse pedido para ficar na casa dela, Victoria teria concordado?
     A porta da antiga casa dos Brodcrick estava aberta, quando ele chegou. O sol comeava a desaparecer no horizonte e o ar refrescava um pouco. Jason bateu no 

batente de madeira, avisan
     
     84
     
     do de sua chegada. Victoria surgiu no hall.
     - Entre - chamou, de longe. - Estamos com uma emergncia na cozinha.
     Ele a seguiu para dentro e encontrou Saily parada diante da mesa, onde a cobertura de sorvete de um bolo derretia a olhos vistos.
     - Deve ser por causa do calor - Victoria comentou, desolada.
     - Esta receita nunca falhou. - Sally virou-se para Jason. - O que acha?
     Ele inclinou-se sobre o bolo, examinou-o e passou a ponta do dedo pelo sorvete, levando-o at a boca.
     - Acho que est delicioso - declarou. - Mas o bolo ainda est um pouco quente. Isco, e mais o calor que est fazendo, s podia derreter o sorvete.
     - Voc tem razo - Sally concordou. - Coloquei a cobertura muito cedo. Mas queria que ficasse tudo pronto para o benfeitor de nossa cidade - juntou, sorrindo.
     Jason emitiu um gemido de desnimo.
     - Nem me fale disto. Passei o dia inteiro ouvindo agradeci mentos e, se soubesse que seria assim, teria ficado bem quieto no meu canto. Todo mundo nesta cidade 

j me convidou para jantar.
     - Bem-vindo ao crculo da salada de batatas - Victoria brincou. - Por falar nisso, Sally vai jantar conosco. O marido dela est viajando, infelizmente.
     Saily riu e abriu os braos para Jason.
     - E ento, primo, onde est meu beijo? Quando ramos crianas, voc dizia que eu era a melhor garota para se beijar!
     Ele tambm riu, abraando-a.
     - Alis, voc era a nica - disse. - Odiava quando mame me obrigava a beijar aquelas tias gordas e com cheiro de naftalina.
     - Acho melhor guardar este bolo no freezer, antes que se desmanche inteiro - Victoria falou, abrindo a porta do refrigerador.
     Pela primeira vez, desde que chegara, Jason ousou olhar diretamente para ela. Estava linda, com um vestido leve cor-de-rosa, com alas to finas que mal pareciam 

prend-lo aos seus ombros.
     Um louco pensamento surgiu em sua mente: se fossem marido e mulher. poderiam fazer 
     
     85
     
     amor  hora que quisessem. Mais tarde, quando a casa estivesse silenciosa, poderia tirar-lhe aquele vestido, a roupa de baixo, e am-la at ficar saciado...
     Riu consigo mesmo. diante de tal idia. Qualquer homem que se deixasse levar daquela maneira por uma paixo, bem merecia o que o destino lhe reservasse. E 
ele 
no seria tolo a este ponto.
     Victoria tentou no se encantar demais com a presena de .Jason, durante o jantar, mas foi quase impossvel. Ele elogiou a comida, exaltando as virtudes do 

rosbife com pur de batatas com tanta admirao que ela e Sally no puderam evitar o riso.
     Ao trmino da refeio, no permitiu que Sally fosse ajudar Victoria na cozinha.
     - Deixe isto comigo - disse  prima. - Pegue seu copo e v descansar na varanda. E uma boa oportunidade de ficar de olho na vizinhana.
     - Est insinuando que sou xereta?
     - No... Digamos apenas que voc gosta de saber como vai a vida das pessoas - ele brincou.
     Depois de Sally saiu, levando consigo um copo de ch gelado, Jason foi para a pia e comeou a lavar os pratos.
     - Eu lavo, voc enxuga - disse.
     - Est bem - Victoria concordou. Depois de trabalharem algum tempo em silencio, falou: - Sabe, Jason, voc  uma excelente companhia, quando quer. A frieza 

e distanciamento que tenta demonstrar s pessoas  apenas fingimento.
     Ele a encarou, os olhos fixando-se em seus lbios cheios e sensuais.
     - Tem razo - disse. - Perto de voc, acho impossvel ficar frio. E distncia  a ltima coisa que quero, entre ns.
     - Jason! - ela exclamou.
     - Ora, pensei que voc quisesse que fssemos sinceros um com o outro.
     - Agora est falando como um cnico. Voc usa a verdade como se fosse uma espada... para se proteger e manter as pessoas afastadas. - Fez uma pausa e juntou, 

com suavidade: - No sou sua inimiga, Jason.
     - Sei que no. Mas fico pensando no que fiz, para merecer este castigo. - A despeito do tom de brincadeira, os olhos dele estavam srios, fitando-a intensamente.
     Foram interrompidos pelo som de vozes na sala.
     
     86
     
     - Acho que so seus pais - Victoria falou. - Convidei-os para um caf, quando me disseram que no poderiam vir jantar.
timo. S falei com eles rapidamente, desde que cheguei. Meu pai e eu estamos planejando uma pescaria, nos prximos dias.
     Saram para cumpriment-los.
     Victoria observou o casal com um novo interesse, agora que sabia da histria de seu passado. Myra e Claude estavam na casa dos cinqenta anos, ela com os cabelos 

e olhos castanhos, enquanto o marido exibia os cabelos escuros, comeando a branquear nas tmporas, e olhos azuis, que eram a marca registrada dos Broderick.
     - Este tempo no est horrvel? - Myra comentou. - Meu jardim est cheio de pragas e no me atrevo a molhar as plantas enquanto Claude no arrancar o mato.
     Victoria percebeu que os lbios de Jason estreitavam-se e quis lhe dizer que a me estava apenas fazendo um comentrio, e no queixando-se do marido.
     - O que aconteceu com o jardineiro que voc contratou? - Saily quis saber.
     - Ah, disse que est com problema nas costas e no pode trabalhar - Myra respondeu, como se no acreditasse na desculpa.
     -Talvez voc o tenha feito trabalhar demais - Jason sugeriu, com a costumeira ironia. - Lembro-me da lista de tarefas que eu tinha de cumprir, antes de poder 

sair para o lago, nadar com meus amigos.
     - Sim, e voc acordava quase de madrugada e terminava tudo antes mesmo que seus amigos pensassem cm se levantar - Myra juntou. Virou-se para Victoria e sorriu. 

- Nunca tive problemas para tir-lo da cama, de manh.
     Victoria percebeu o orgulho na voz de Myra, porm viu que Jason no pensava o mesmo. Ele permaneceu cm silncio, educado mas retrado, distanciando-se de qualquer 

emoo.
     - Myra sempre disse que Jason conseguia fazer o trabalho de dois homens, mesmo sendo to jovem - Claude intercedeu, orgulhoso. - Foi por isso que teve tanto 

sucesso, quando decidiu agir por conta prpria e abrir uma empresa.
     - Era evidente que Claude fazia o papel de conciliador, entre o filho e a esposa, Victoria concluiu. E achava que, se fosse necessrio tomaria o partido de 

Jason, contra a esposa.
     
     87
     
     Lanando um olhar na direo dele, que se encontrava recostado num dos pilares da varanda, viu que tambm a observava. Seus olhos se encontraram e, por um 
segundo, 
houve uma troca secreta, ntima, que fez com que um arrepio lhe passasse pelo corpo.
     Tentando disfarar, ela se voltou para o casal e fez um comentrio a respeito do presente que Jason dera  cidade. Como era de se esperar, mais uma vez no 

faltaram elogios quela atitude.
     Em certo momento, Claude dirigiu-se ao filho:
     - Sua me vai estar bem ocupada, amanh, com os preparativos para a festa da cidade. O que acha de sairmos para pescar, logo cedo?
     Jason concordou e, aproximando-se do pai, passou a combinar os detalhes para a pescaria, enquanto as mulheres conversavam sobre os arranjos para as comemoraes.
     - Victoria, que tal servirmos o bolo aos seus convidados - Saily sugeriu. - Ou ser que  melhor servir apenas o sorvete?
     Victoria sorriu para a amiga.
     - Acho que o bolo vai estar timo, mesmo com a cobertura um pouco mole - respondeu, encaminhando-se  cozinha.
     Vou ajud-la - Jason ofereceu-se, saindo logo atrs.
     Enquanto arrumavam os pratos e talheres, sem trocarem uma palavra sequer, Victoria sentia a presena dele mais do que nunca. A respirao tornara-se quase 
ofegante 
e o corao batia em seu peito como louco.
     Ao retornarem  varanda, Jason tornou as coisas ainda piores, sentando-se nos degraus da escada, onde ela estava, e quase lhe tocando o joelho com o brao.
     Quando todos acabaram de comer, ele recolheu os pratos e convidou o pai a acompanh-lo at a cozinha.
     - Vamos l, pai. Vamos mostrar a estas senhoras como se lava loua de verdade - brincou.
     Sally virou-se para Myra.
     - Estive conversando com minha me, hoje  tarde - disse.
     - Ela comentou que imagina o quanto voc deve estar ansiosa para que Jason se case e lhe d netos.
     Myra suspirou.
     - Ele nunca me ouve...
     
     88
     
     Continuaram conversando sobre o assunto, at que os homens retornaram  varanda, interrompendo a conversa.
     - Acho que est na hora de ir pai-a o hotel - Jason avisou, encaminhando-se para a escada. - Tenho de dormir cedo, se quiser acordar s quatro da manh, para 

a pescaria.
     - A cidade grande est deixando-o fracote - Claude brincou.
     - Seu quarto est arrumado, em casa... - Myra comeou.
     - Ora, Myra, deixe o rapaz  vontade. Nenhum homem com mais de vinte e um anos gosta de ficar sob as vistas da me. Quem sabe Jason tem uma namorada esperando 

por ele, no hotel?
     Sally riu.
     - Isto  impossvel. Uma pessoa no pode sequer ter uma dor de cabea, nesta cidade, sem que todo mundo fique sabendo.
     - Concordo plenamente - Jason afirmou.
     Victoria ergueu os olhos a tempo de v-lo encarando-a e estremeceu de leve.
     Depois de beijar a me e a prima no rosto, ela ia se afastando, deixando-a com um aperto no peito. Porm, como se mudasse de idia de repente, voltou e inclinou-se 

para ela, pousando um beijo quente em sua face.
     - Boa noite para todos - disse. Para o pai, juntou: - Vejo voc s quatro da madrugada.
     Quando chegou ao hotel, encontrou Adam Clairmont, um velho amigo de infncia. Cumprimentaram-se efusivamente e foram at o bar, para um drinque.
     - Estive aqui esperando voc voltar de seu jantar - Adam explicou. - Queria saber por quanto tempo pretende ficar na cidade. Tenho alguns amigos que gostaria 

que voc conhecesse.
     - Vou ficar at o fim desta semana - Jason respondeu.
     - Conhece Washington Houston? Pois ele quer lhe fazer uma proposta de negcios.
     - Que tipo de negcios?
     - Algum dia j se imaginou como proprietrio de um hotel de lazer e um tipo de fazenda de trabalho?
     Jason recostou-se na cadeira, interessado.
     - Creio que estou sendo um tolo em perguntar. Mas o que  uma "fazenda de trabalho"?
     - Houston comprou uma fazenda num vale, perto daqui. A idia dele  transform-la num lugar onde as crianas de cidades grandes possam vir passar as frias 

trabalhando, aprendendo
     
     89
     
     alguma coisa til, em vez de apenas ficar nas ruas.
     - Acho que estou entendendo - Jason murmurou. - Muito bem, qual  o negcio?
     Adam explicou em detalhes a idia dele.
     - J sei o que faremos - Jason sugeriu. - Vou sair para pescar com meu pai, amanh cedo. Por que no vem conosco e discutimos o assunto com calma?
     - Eu vou, sim. Um problema que temos de resolver  quanto  estrada que liga Paradise Falis  rodovia estadual. E o caso mais frustrante de burocracia que 
j 
vi.
     - Lembro-me de que isto foi mencionado na reunio do Conselho, ontem noite - Jason falou, estreitando os olhos. - Voc suspeita de alguma coisa?
     Adam assentiu sim.
     - Houston e eu estamos quase convencidos de que algum andou pagando para que a estrada no fosse concluda. S no entendemos por qu. Afinal, seria um benefcio 

para todos, quem iria querer bloquear a construo?
     Jason pensou por um instante.
     - Victoria deve ir para Charleston a fim de checar este assunto com as autoridades - disse. - Talvez algum devesse fazer uma investigao paralela, enquanto 

ela lida com as entidades do governo.
     - Boa idia! - Adam exclamou. - E quando vocs partem?
     - Hei, espere um pouco! - Jason ergueu as mos, como se quisesse impedir o avano. - No disse que eu iria!
     A conversa continuou mais uma hora, antes que Adam se despedisse.
     Jason foi se deitar pensando naquele problema e descobriu que, no fundo, queria saber o que realmente estava acontecendo com relao  estrada. Alm disso, 

estaria em companhia de Victria...
     Fechou os olhos com fora, tentando afastar a imagem daquele corpo e rosto que o enlouqueciam. Virando-se de um lado para outro, um novo pensamento lhe surgiu 

na mente.
     Sua me sempre quisera que ele se formasse em direito, como seu primo John. 
     
     90
     
     Mas, recusando-se, ele fizera o curso de engenharia e, graas ao encorajamento de seu primeiro patro, iniciara sua prpria empresa.
     Se tivesse feito a faculdade de direito, juntamente com seu primo, teria conhecido Victoria na mesma poca em que ele a conhecera.
     E havia uma coisa cm que sempre pensava; se ela tivesse visto primeiro, teria se apaixonado por ele?
     
     91
     
      CAPTULO VIII
     
     Victria acabava de preparar sua caixa de guloseimas para o leilo beneficente. Embrulhou pezinhos de canela, biscoitos de chocolate e alguns vidros de legumes 

em conserva. Deixando o melhor para o final, juntou dois pedaos da torta de chocolate da srta. Josie.
     - Gostei mais de sua idia - a srta. Josie comentou, com parando a caixa de sapatos que ela havia coberto e decorado com papel de seda lils, com a sacola 
de 
compras estampada de bichinhos, em que Victoria acrescentara um lindo lao amarelo.
     Victoria sorriu.
     - Sua caixa est linda.
     - Lils  a cor predileta das velhas solteironas - comentou.
     - E eu sou uma delas.
     O sorriso de Victoria desapareceu. O noivo da stra. Josie havia morrido na Segunda Grande Guerra.
     - Nunca mais encontrou algum a quem pudesse amar? - perguntou.
     - No - a velha senhora respondeu. - Bem, houve um homem, uma vez. Mas ele estava apaixonado por outra.
     - E mesmo? E quem  ele?
     - Ah, isto voc jamais saber. - Com um arzinho misterioso, a srta. Josie pegou a bolsa. - Acho melhor irmos andando, ou vamos nos atrasar para o leilo.
     Victoria tomou a sorrir para a vizinha. O amor, pensou. As pessoas sempre se envolviam, se magoavam ou se confundiam com aquele sentimento.
     Mas ela no iria cair na armadilha. Estava com as emoes sob controle, no estava apaixonada por Jason. 
     
     92
     
     O que acontecer entre os dois fora apenas um impulso de momento, como ele prprio dissera.
     S esperava que ele terminasse a pescaria a tempo de participar das festividades daquela noite...
     As duas mulheres saram a p at a praa central, onde o chefe de polcia faria o leilo das caixas de guloseimas. O dinheiro arrecadado seria doado  biblioteca 

para compra de novos livros.
     Encontraram outros moradores indo na mesma direo, todos carregando suas caixas. Aps o leilo, iria se iniciar o piquenique anual do dia 4 de Julho, aniversrio 

da independncia dos Estados Unidos. Depois que escurecesse, o espetculo de fogos de artifcio seria o ponto principal da festa.
     A primeira pessoa que Victoria viu, ao chegar, foi Jason. Com o corao aos saltos, percebeu que ele reparava bem na sacola que ela trazia nas mos e imaginou 

se estaria pensando em ar remat-la no leilo. De acordo com os costumes da cidade, a pessoa que arrematasse as guloseimas teria de compartilh-las com quem as 
preparara.
     Mordeu o lbio, confusa em relao a seus sentimentos. Se no estava apaixonada, se no se importava com ele, por que ficava to nervosa ao v-lo?
     Encaminhou-se para a grande mesa onde as caixas estavam dispostas, cumprimentando amigos e conhecidos e, pouco depois, o chefe de polcia Dean iniciou o leilo.
     Avistando as amigas Clara e Sally, acompanhadas dos maridos, acenou-lhe de longe.
     - V se juntar aos jovens - a sra. Josie encorajou-a. - Acho que vou me sentar ali com Myra Claude e o restante da velharia.
     Victoria riu e foi para a mesa dos amigos, aliviada por no ver Jason por perto. Porm, mal acabava de se sentar, ele surgiu ao seu lado.
     - A srta. Josie me confidenciou que voc estava esperando que eu lhe fizesse companhia - ele disse, com uma expresso divertida no olhar.
     Victoria pensou cm negar, mas mudou de idia. Afinal, estando l da cidade havia tanto tempo, Jason podia sentir-se deslocado. Seria falta de gentileza negar-lhe 

a companhia.
     - S se voc no tiver uma acompanhante - disse, ento, com um sorriso maroto.
     
     93
     
      - Eu no gostaria de interferir em seus assuntos pessoais.
     Trocaram um olhar e ele tambm sorriu. Era evidente que no se esquecera da ocasio em que ela havia realmente interferido, desmarcando seu encontro com a 
modelo.
     - Sente-se aqui, Jason - Adam chamou-o, puxando uma cadeira. Apresentou-o  esposa, Clara e a Riley, marido de Sally.
     Quando o leilo comeou, Adam e Riley arremataram as caixas das respectivas esposas.
     - Cinqenta dlares... - Jason murmurou, ao ver o quanto eles tiveram de pagar por cada caixa. - E um piquenique bem caro, este.
     - Voc no  obrigado a participar - Victoria falou, rapidamente. - Se preferir, h uma barraca vendendo hambrguer.
     - No. Acho que estou comeando a gostar da brincadeira. Deve ser interessante abrir a caixa e descobrir as surpresas.
     A sacola de compras com um lao, que ela trouxera, estava agora sendo leiloada, e o lance inicial era de cinco dlares. Jason ergueu a mo, oferecendo seis. 

De repente, dois outros homens passaram a fazer lances, que chegaram  quantia absurda de setenta dlares.
     - Isto  demais, Jason - Victoria murmurou, quando ele ofereceu setenta e cinco.
     - E para uma boa causa.
     Diante daquela evidente demonstrao de interesse, a cidade inteira j sabia que Jason estava disposto a arrematar as guloseimas da prefeita a qualquer preo, 

bem como o seu oponente, um pediatra que no escondia a admirao que sentia por Victoria.
     Mas Jason acabou vencendo o embate, dando um lance final de cem dlares. Um murmrio de aprovao percorreu a audincia, precedendo uma salva de palmas, quando 

ele se levantou para buscar o prmio.
     - Espero que Sally no tenha feito sanduches de peito de peru com picles - Riley brincou, quando todos comearam a partilhar o contedo de suas caixas. Faz 

uma semana que s comemos isso, em casa.
     - Pois estou pensando em mudar para melancia - Sally retrucou. - Desde que acordei, hoje, estou louca para comer melancia.
     - Saily...? - Clara comeou, fitando-a com o canto dos olhos.
     
     94
     
     O casal trocou um olhar temo e divertido e Sally riu.
     - E isso mesmo que est pensando - confessou. - Daqui a alguns meses, vou estar com a aparncia de quem engoliu uma melancia inteira.
     Todos riram daquela imagem.
     - Vai ficar linda, isto sim! - Victoria exclamou, encantada.
     - Vejam s, Sally grvida... Ser o primeiro beb em nosso grupo.
     Quando a conversa se generalizou e todos passaram a falar sobre bebs e partos, Victoria ficou em silncio, sentindo um aperto no peito. Deu-se conta de que 

desejava muito ser como suas amigas: feliz, segura, apaixonada e grvida. Cruzou as mos no colo, tentando lutar contra as emoes que a invadiam.
     Naquele instante, Jason tocou-lhe as mos, sob a toalha da mesa. Seus olhos se encontraram e, nos dele, havia um brilho profundo, intenso. Sentindo um calor 

percorr-la, Victoria desviou o rosto. Subitamente, descobria que tudo o que ansiava estava ali, ao seu lado. Queria ter um filho de Jason.
     A noite comeava a cair, lenta e suave. As primeiras estrelas brilhavam no cu e, erguendo o rosto para elas, Victoria sentiu uma melancolia invadi-la. Num 

impulso, apertou a mo de Jason, como se quisesse demonstrar gratido por sua presena.
     - Quando pretende ir a Charleston investigar o caso da rodovia? - Adam perguntou a Jason, mais tarde, quando j haviam acabado de comer.
     - No antes de setembro, provavelmente - ele respondeu.
     - Quero deixar pronto o playground, e a construo s deve terminar no ms que vem.
     Victoria lanou-lhe um olhar interrogativo, mas ele ignorou-a. A conversa desviou-se para o assunto da fazenda que Adam e Houston pretendiam transformar em 

hotel de recreio. Victoria era de opinio que turismo era um campo imprevisvel e arriscado demais.
     - Primeiro temos de ter certeza que a rodovia ser construda - argumentou. - Vou conseguir uma petio, lev-la a Charleston o mais breve possvel e tentar 

descobrir por que as obras no saem do papel.
     O pai de Jason aproximou-se para avisar que iria para casa e, no caminho, deixaria a srta. Josie.
     - Acho que tambm vou Victoria decidiu.
     
     95
     
     No, fique mais um pouco. Depois eu a levo - Jason ofereceu.
     Espere pelos fogos - disse Sally.
     - Posso v-los da varanda de casa. - Victoria levantou-se. - Talvez a srta. Josie no esteja se sentindo bem. Jason tambm se levantou.
     - Ento levo vocs duas.
     Despediram-se dos amigos e, depois de uma breve conversa com os pais de Jason, saram levando a velha senhora.
     - Est cansada? - Victoria perguntou-lhe,  caminho do carro.
     - S um pouquinho - a srta. Josie admitiu, embora fosse  evidente que toda a agitao fora demais para ela. - Voc no precisa deixar a festa por minha causa.
     - Tambm estou cansada.
     - Ento deixem-me ajudar as duas ancis a entrarem no carro - Jason brincou, abrindo a porta. A srta. Josie foi no banco da frente e Victoria atrs.
     Quando chegaram  casa da senhora, ela os fez esperar um pouco, enquanto ia buscar mais dois pedaos de torta.
     - Talvez vocs fiquem com fome, depois dos fogos - explicou.
     - Obrigada, srta. Josie. Boa noite.
     Jason ligou o motor e, pouco depois, estacionou o carro diante da casa de Victoria. Entraram e se encaminharam para a varanda.
     - Gostaria de comer a torta agora? - Victoria perguntou, encaminhando-se para a varanda.
     - No - ele respondeu, a voz rouca. - A fome que sinto no  por comida.
     Ela virou-se, encarando-o, mas antes que pudesse responder, os fogos de artifcio comearam a espocar no cu.
     Sem nada dizer, sentou no balano da varanda e acomodou-se no degrau da escada, recostando-se no pilar, de costas para ela. Permaneceu assim pelos quase quarenta 

e cinco minutos que durou o espetculo, sem dizer uma palavra sequer. Victoria o observava, sentindo explodir dentro de si emoes to fortes quanto as luzes que 

coloriam o cu.
     Queria tanto... O qu?, perguntou-se. Na verdade, no sabia o que queria. A felicidade lhe parecia algo to distante, inatingvel. 
     
     96
     
     Lgrimas lhe surgiram nos olhos e ela as enxugou, de pressa.
     - Bem, foi muito bonito - Jason comentou, quando aqui voc retornou. - Quem pagou pelo espetculo?
     Victoria sentia um n na garganta. Com esforo, respirou fundo e murmurou:
     - A cidade.
     Jason virou-se e fitou-a atravs da escurido.
     - O que foi? - perguntou, depois de um segundo de tenso.
     - Nada. - Ela tentou rir. - Sempre fico emocionada com este tipo de celebrao - mentiu. A propsito, voc esqueceu de deixar a barba crescer.
     Jason levantou-se e foi sentar ao lado dela, mantendo o olhar para a rua em frente.
     - No vou ficar aqui por tempo suficiente para que minha barba cresa.
     -  verdade. Tem de voltar  sua vida, na cidade grande. As nossas tradies locais o aborrecem, Jason?
     - Ora, Victoria, que diabos... - ele comeou. Mas calou-se, com um suspiro.
     - Desculpe; Estou sendo rabugenta. Voc no vai instalar a fbrica aqui, no ?
     Ele hesitou, depois balanou a cabea, em negativa.
     - S os custos com transporte seriam proibitivos - explicou.
     - Eu sabia. Apenas no estava querendo admitir - ela murmurou.
     - Voc fica triste em saber que sua amiga vai ter um beb? - ele perguntou, de repente.
     Victoria engoliu em seco, sentindo as lgrimas retornarem.
     - Acho que no. - Procurou um leno no bolso e enxugou os olhos. - E que... Creio que s vezes espero muito da vida.
     Como um lar, marido, filhos?
     - Voc  muito perspicaz - ela afirmou, tentando recuperar O controle.
     -  natural que queira recuperar as coisas que j teve, um dia - ele murmurou.
     Devagar, passou o brao em torno dos ombros dela, como se temesse ser rejeitado. O perfume de seus cabelos, suave e delicado, Penetrava-lhe nas narinas. Depois 

de hesitar por um instante, tocou-os com os lbios.
     
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     A dor que oprimia o peito de Victoria foi aos poucos diminuindo, at desaparecer. No lhe importava mais nada se, naquele momento, estava feliz ao lado dele. 

Ergueu o rosto, encontrando-lhe os olhos.        
     - Victoria... - ele sussurrou. -  impossvel estar ao seu lado e no desej-la.
     - Eu te quero, tambm - ela afirmou, com simplicidade. Emitindo um gemido rouco, Jason tomou-a nos braos, fazendo-a sentar em seu colo. Seus lbios se tocaram, 

suaves de incio, depois vidos, famintos. Ele acariciou-lhe os seios, delicadamente, com movimentos lentos e febris.
     Quando se separaram, a respirao de ambos era ofegante.
     - Isto no est certo - ele murmurou.
     - E maravilhoso...
     - Mas, de que adianta? No importa o quo moderna voc se considere, ainda  a prefeita desta cidade. No quero transform-la em alvo de comentrios.
     - Isso no vai acontecer...
     Ele se levantou, dando alguns passos pela varanda. Depois, parou  sua frente, observando-a, tentando entend-la.
     - Jason?
     Enfiando as mos nos bolsos, para impedir de tornar a abra-la, ele respirou fundo.
     -O qu?
     - Acho que estou apaixonada por voc.
     Ele queria ajoelhar-se aos seus ps, beij-la inteira, dar vazo paixo que explodia em seu peito. Porm, logo recobrou o bom senso.
     - Isto  apenas uma reao emocional - disse, o mais fria-mente que pde. - No  verdade.
     Victoria endireitou-se.
     - O que est dizendo? - perguntou.
     -  por causa do que houve no escritrio, naquele dia. A tenso que compartilhamos, com Susan... - A risada dela o interrompeu. Limpou a garganta, esforando-se 

em prosseguir: - Depois, em minha casa, o que existiu foi paixo. E admito que foi maravilhoso.
     - Sim - ela disse, sonhadora. - Foi mesmo, no ?
     - Exatamente, E voc se sentiu grata, pois foi como se estivesse despertando novamente a
     
     99
     
     verdadeira mulher que h em voc.
     - E como voc se sentiu?
     Jason sabia que a pergunta inocente escondia uma armadilha. Mas, depois de pensar um pouco, no pde descobrir qual seria.
     - Senti o mesmo - respondeu, ento.
     - Voc  um amante maravilhoso. Terno, delicado, especialmente quando percebeu que era a primeira vez, em muito tempo, para mim.
     Ele fitou-a com intensidade, antes de falar.
     - E voc quase me fez desmoronar. Sua resposta foi to natural e espontnea que quase no pude me conter.
     Victoria encolheu os ombros.
     - No h nada mais natural do que um homem e uma mulher compartilharem o prazer.
     - Mas voc est confundindo paixo com amor.
     - E voc sabe qual  a diferena? - ela questionou.
     -  claro que sim. - Mal acabara de falar, Jason percebeu que cara na armadilha.
     - Bem... Eu tambm sei.
     Victoria levantou e aproximou-se, os lbios quase tocando os dele.
     Mas Jason se afastou, procurando uma distncia segura para que pudesse argumentar.
     - Creio que no, neste caso - disse, num suspiro. - Voc est pensando em John.
     - O qu?!
     - Est me confundindo com John. Ele foi seu primeiro amante, no foi?
     - Sim, mas...
     - A culpa foi minha. - Jason estava tenso, contrito. - Sabia que voc estaria vulnervel, depois do que ocorreu no escritrio, que lhe traria lembranas.
     - No  nada disso - Victoria discordou. - O que aconteceu me fez ver o outro lado de sua personalidade. - Fez uma pausa e tocou-lhe o ombro. - Por que insiste 

em se esconder, Jason? Por que no assume de uma vez o seu lado terno, gentil e com passivo que conheci?
     - Est deixando sua imaginao domin-la.
     - Pois acho que no. - Victoria ela pousou ambas as mos sobre o peito dele.
     tivesse despertando novamente a verdadeira mulher que h em voc.
     
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     -  assim to difcil acreditar que o amo  pelo que ?
     .Ele riu, retirando-lhe as mos.
     - Pelo que sou? - repetiu, irnico. - J se esqueceu de que, quando estvamos na cama me chamou de maneira que costumava. chamar John?
     - Que maneira? - ela murmurou, confusa.
     - "Amor". Voc sempre o chamava de "amor".
     Ela sorriu, aliviada.
     - Ora, Jason, chamo todo mundo a quem gosto de "amor": meus pais, meus primos, meus melhores amigos. E apenas uma maneira carinhosa de falar. Jamais seria 
capaz 
de confundi-lo com ningum.
     Um silncio pesado caiu entre eles, at que Jason deu-lhe as costas.
     - Isso no importa - disse, com frieza. - Se consegui faz-la feliz por alguns instantes, no tenho do que me queixar, no ? Tambm tirei proveito disto.
     - Agora est falando como o antigo Jason, cnico e frio - ela afirmou. - Mas sei muito bem que, para o Jason que conheo, uns poucos beijos no foram suficientes. 

Como no foram para mim.
     - Pois ento trate de esquec-lo.
     - No posso. Como disse, estou apaixonada por ele.
     - Ento voc no passa de uma tola. - Jason comeou a descer a escada.
     - No sou, no! - ela gritou, no instante em que ele entrou no carro.
     Mas Jason se foi, sem sequer olhar para trs.
     
     
     
      CAPTULO IX
     
     
     
     Victria terminou de arrumar a vitrine de sua loja de roupas, na qual usara motivos de outono, e olhou no relgio. Eram quase seis horas e tinha de sair para 

a cerimnia de inaugurao do playground.
     Os trabalhos haviam terminado no dia anterior e Jason, Adam e Riley ficaram at a noite ajudando os pais a montarem os brinquedos. Quando tudo estava pronto, 

Sally convidara os casais para uma pizza, mas Jason recusara o convite, dizendo que tinha um outro compromisso. Enquanto Victoria tentava disfarar a dor que sentia, 

ele se fora sem lhe dirigir a palavra.
     Suspirando, pegou a bolsa, trancou a porta e foi para o carro. Quando chegou ao parque, viu que estava lotado de gente. A cidade inteira decidira prestigiar 

a inaugurao, pensou. Como no encontrasse uma vaga sequer para estacionar, foi para casa, onde deixou o carro, e retomou ao parque  p.
     - Victoria, voc est atrasada! - Saily exclamou, ao v-la. - J amos mandar Jason  sua procura.
     Ela conseguiu esboar um sorriso frio, ao encontrar o olhar dele. No haviam estado a ss desde a noite em que ele a deixara parada na varanda, depois do espetculo 

de fogos, havia sete Semanas.
     - Venha comigo - ela disse para Jason. - Vou ter de fazer um discurso e quero que voc tambm diga algumas palavras.
     Ele fez uma careta, mas seguiu-a.
     Depois que Victoria falou  comunidade, num discurso simples e breve, mas cheio de calor e sinceridade, foi a vez de Jason, que agradeceu o fato de os pais 

terem dado seu nome ao parque.
     Mais tarde, todos se reuniram em torno das mesas armadas no parque, onde estava sendo
     
     101
      servido um lanche que os pais de alunos haviam levado.
     Victoria foi interpelada vrias vezes por pessoas preocupadas com o andamento do caso da rodovia. A cada uma explicava que conseguira uma petio e que iria 

encaminh-la ao deputado responsvel pelo projeto da construo da rodovia estadual. Pretendia. fazer isto na segunda-feira.
     Quando finalmente conseguiu sentar-se  mesa onde estavam os casais amigos, Jason acompanhou-a.
     - Voc vai sozinha para Charleston? - ele quis saber.
     -  claro que sim - ela respondeu, lanando-lhe um olhar... irritado.
     - E quando vai?
     - Na segunda-feira.
     - Ento vou lev-la - ele afirmou.
     Victoria, Clara e Sally ficaram atnitos com aquela declarao. Adam e Riley riram, enquanto a expresso de Jason adquiria um ar de embarao. Sentia-se como 

um garotinho apanhado passando um bilhete apaixonado na aula.
     - Estou de frias, esta semana - apressou-se em explicar. - Pretendia sair para pescar com meu pai, mas ele vai estar ocupado. Assim, tenho bastante tempo 
livre.
     Sentiu-se ainda mais tolo quando Victoria, num impulso. deu- lhe um sonoro beijo no rosto.
     - Que bom, Jason! - ela disse, feliz como se tivesse ganho um presente.
     Saily encarou-o.
     - Estou contente em saber que no vai desperdiar esta chance de... - fez uma pausa - continuar cumprindo suas obrigaes cvicas para com a cidade onde nasceu.
     Todos riram, inclusive Victoria, que tentava ignorar as batidas loucas de seu corao.
     - Gostaria de sair logo cedo, na segunda - disse.
     - Passo para apanh-la s sete - Jason avisou.
     E ela no discutiu.
     Chovera muito durante a noite e, na manh de segunda, trnsito estava uma loucura. As ruas molhadas e escorregadias. s faziam piorar o humor das pessoas que, 

apressadas, tentavam chegar ao trabalho ou  escola.
     
     102
     
     Depois de perderem um bom tempo num congestionamento, finalmente Jason e Victoria alcanaram a rodovia que levava a Charleston.
     - Por que se ofereceu para vir comigo? - ela indagou, ento.
     - Imaginei que pudesse precisar de ajuda. Se h algum interessado em retardar a construo da estrada, talvez no goste de saber que voc est disposta a 
descobrir 
quem  e por qu.
     Victoria no discutiu, embora achasse que ele estava exagerando. Continuou em silncio, enquanto a chuva recomeava, forte e implacvel. Com a visibilidade 

reduzida, a viagem que normal mente seria feita em uma hora demorou quase duas.
     Quando chegaram  capital, ela no estava com a menor disposio de enfrentar o representante distrital, a quem apresentaria a petio dos moradores de Paradise 

Falis.
     - Vamos nos encontrar mais tarde, naquela lanchonete de fronte ao escritrio do deputado - disse Jason, ao estacionar.
     Vou aproveitar para fazer algumas investigaes por conta prpria. Conheo um engenheiro que trabalha no departamento de estradas.
     - Est bem. Mas no sei quanto tempo vou demorar.
     - No faz mal. - Jason ergueu os olhos para o cu. - S espero que consigamos ir embora antes de escurecer. A estrada vai ficar ainda pior, se no parar de 

chover.
     - Voc no devia estar desperdiando as frias para me ajudar. - Victoria tornou, enviando-lhe um olhar carinhoso. - Devia estar descansando.
     - Deixe que eu me preocupe com isso - ele disparou, num tom frio. Mas, antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, encarou-a e desculpou-se, com um sorriso.
     - Vejo voc mais tarde - ela disse, saindo do carro com o corao leve.
     Depois de falar com o deputado e lhe apresentar a petio, Jason insistiu em que almoassem juntos. Foi gentil e atencioso, embora no lhe fizesse promessas. 

Victoria sorria, reconhecendo a manobra poltica, que ela prpria j havia usado, algumas vezes.
     Foi para a lanchonete por volta das duas horas e esperou por Jason, que s apareceu s cinco.
     Sentando.se ao lado de Victoria, na mesa, a excitao dele era evidente
     
     103
     
     - Teve sorte? - ela indagou, observando-o. Tinha a impresso de que no iria gostar das novidades.
     Jason assentiu.
     - Meu amigo engenheiro me deu uma pista e conseguimos segui-la at o fim - respondeu.
     - Ento? Victoria torcia o guardanapo, nervosa. - algum bloqueando a construo da estrada, no ? Descobriu quem?
     - Creio que sim. H trs anos Frank Wagner vem comprando as terras ao longo da futura rodovia. Falta apenas uma parte, para que seja o dono de tudo.
     - O sr. Wagner... - ela repetiu, perplexa. - Est me dizendo que  ele quem est interceptando a construo? Mas ele  membro do Conselho da cidade, Jason. 

Est a favor da rodovia!
     - Disto no tenho dvidas- Jason respondeu, com um sorriso frio. - Mas em seus prprios termos. Ele tem um amigo trabalhando no departamento de estradas que, 

por coincidncia, dirige o comit de planejamento. Com certeza, vai avis-lo quanto ao  projeto finalmente for aprovado.  bem provvel que Wagner obtenha algumas 

vantagens com isto.
     - No posso acreditar... - Victoria passou a mo pela Jason olhou pela janela.
     - Acho melhor comermos alguma coisa rpida e voltar antes que a chuva piore - disse.
     Por volta das seis horas estavam novamente na rodovia. Porm, a chuva caa com mais fora e, com a escurido da noite, tornava a viagem um martrio.
     Victoria tinha as mos cruzadas no colo, enquanto atravessavam as montanhas. Fora naquela mesma estrada que ela e sofreram o acidente, oito anos atrs.
     Com os olhos fixos  frente, sentia um n na garganta e corao disparando.
     - Jason, tenha cuidado - pediu, baixinho.
     - No se preocupe - ele disse, sem desviar os olhos da estrada.
     -  que... no quero que nada lhe acontea. - Tentou se explicar, embora no tivesse certeza do que queria dizer. - No quero perd-lo antes de ter uma chance 

de conhec-lo de verdade. Antes que ns dois nos conheamos.
     
     104
     
     - Depois daquela noite em minha casa, acho que nos conhecemos muito bem - ele respondeu.
     - Mas no completamente.
     Jason fez uma curva fechada, na parte mais ngreme da montanha, e diminuiu a velocidade, os olhos fixos  frente.
     - O que  aquilo na estrada? - perguntou.
     De repente, Victoria percebeu o rudo que ouvia na capota do carro no era apenas da chuva.
     - So pedras! - exclamou. -  uma queda de barreira, Jason! Cuidado!
     Mas era tarde demais.
     Uma avalanche de lama, pedregulhos e pedras desabou sobre eles, fazendo com que o veculo derrapasse para fora da estrada, a despeito dos esforos de Jason 

para control-lo. Para Victoria, foram segundos de pura agonia, em que revivia o pesadelo de despencar pelo barranco da estrada. Ela e Jason iriam morrer.
     E no o havia convencido de seu amor, pensou, um pouco antes de o mundo desaparecer numa exploso de luzes. Depois, s restou a escurido.
     A voz lhe chegou, distante. Ela se lembrava de t-la ouvido, uma vez, quando estava com muito frio. Era a mesma voz que a chamara de volta, quando entrara 
no 
tnel iluminado, onde John e o beb a esperavam...
     - Victoria, voc est bem? Responda, pelo amor de Deus!
     Ela abriu os olhos, embora s enxergasse a escurido.
     - Jason?
     - Est ferida? - ele perguntou, aliviado.
     - Minha cabea... - Victoria murmurou. - Bati em alguma coisa.
     - E o resto? - O tom de voz de Jason era calmo, agora. Ela sentia as mos dele em seus ombros.
     - Acho que est tudo no lugar - respondeu, movendo os braos e pernas. - E voc?
     - Estou bem
     - Est to escuro...
     Ouviu-o soltar o cinto de segurana e abrir o porta-luvas, de onde retirou uma lanterna.
     - Meu Deus... - ele disse, quando acendeu-a.
     Victoria percebeu num instante a situao precria em que se encontravam. Haviam ro-
     
     105
     
     lado a ribanceira, batendo contra uma rvore, que os impedira de despencar no precipcio que se abria sob eles.
     - Estamos perto de Vista Point - constatou.
     - Sim.
     - Perto de onde John...
     - Sim - ele interrompeu. Apagou a lanterna e abraou-a.
     - No tenha medo, Victoria. Vou tir-la daqui.
     - Foi voc quem me tirou do carro, da outra vez. Foi voc... Voc me encontrou, me chamou de volta... Voc me deu um tapa! - As lembranas a invadiam, mais 

intensas, agora. - Voc me salvou, Jason! Eu no sabia, no me lembrava... Mas voc me salvou a vida!
     - Mas no pude salvar seu marido.., nem seu beb.
     Victoria sentia as lgrimas escorrendo pelo rosto, enquanto permanecia abraada a ele.
     - Fez tudo o que pde - disse, revendo cada cena de seu antigo pesadelo e, finalmente, compreendendo-o. - Ningum podia lhe pedir mais do que isto.
     - Voc pensou que eu fosse John... O que eu mais queria era poder traz-lo de volta a voc. Era o que faria, se fosse possvel.
     - Ah, meu querido... - Victoria sussurrou, percebendo-lhe o sofrimento.
     O vento fez o carro vacilar, lembrando-os de seu frgil equilbrio. E se no fossem socorridos a tempo?, ela perguntou-se, abraando Jason com fora.
     - Eu te amo, Jason - disse, ento. - Amo voc, mais do que tudo no mundo.
     Ele se afastou um pouco.
     - Estamos passando por outra emergncia - falou, num tom zombeteiro. - Vai se sentir diferente, pela manh.
     - No. Voc est enganado. - Com um suspiro, Victoria preparou-se para enfrentar a espera, at que a chuva e a escurido desaparecessem.
     O amanhecer estava ainda muito distante... E quem sabia o que o amanh iria lhes reservar?
     
     106
     
     
     
      CAPTULO X
     
     
     Com o amanhecer, veio a certeza de que a ajuda ainda poderia demorar. 
     Victoria estava do lado em que o vazio do abismo se abria, enquanto ao lado de Jason erguia-se a encosta da montanha.
     - Experimente abrir a porta agora, j que estamos enxergando melhor - ela sugeriu.
     Jason j havia tentado fazer isto antes, mas a porta estava presa. Tentou novamente. O veculo balanou, fazendo a rvore que os apoiava inclinar-se um pouco 

para a frente.
     - Tente a janela - Victoria falou.
     Jason girou a chave na ignio e o vidro automtico abriu-se sem problemas.
     Naquele instante, um grito vindo de cima chegou at eles. A polcia rodoviria estava ali.
     Em poucos minutos, com a ajuda de um guindaste, foram iados para cima. Victoria e Jason estavam livres, depois de horas presos no carro.
     Logo depois, foram levados de volta  cidade. Aps passarem pelo hospital, para faze um check-up geral para ver se estavam realmente bem, Jason acompanhou 
Victoria 
at sua casa.
     Assim que chegaram, ela lhe perguntou:
     No quer entrar para tomar o caf da manh? - Uma intensa euforia a invadia. Apesar do susto, do medo, tudo acabara bem e lhe restara a certeza de que Jason 

a amava. Tinham tanto a conversar, tantos planos a fazer...
     - No, obrigado - ele respondeu. - Preciso ir at a casa de meus pais e assegurar-lhes de que estou bem. A cidade inteira deve estar sabendo do acidente, a 

esta altura.
     
     107
     
     Mais tarde, depois de tomar um banho e dormir um pouco, Victoria ligou para Jason, Myra atendeu e informou-se de que ele acabara de sair, levando a barraca 

de acampamento e uma mochila com roupas.
     - Disse que precisava de tranqilidade para colocar os nervos no lugar, depois do acidente - Myra juntou. - Para ser sincera, ele parecia mesmo um tanto plido.
     - Entendo... - disse Victoria, num fio de voz.
     No dia seguinte, Victoria convocou uma reunio com os membros do Conselho, sem a presena dos moradores. Depois que todos fizeram comentrios e perguntas a 

respeito do acidente, ela abriu a sesso.
     Encarou os cinco membros, reunidos na sala ao lado de seu escritrio e hesitou, desejando estar em qualquer lugar, menos ali.
     - Parece que estamos com um problema - comeou, depois de um rpido olhar na direo do sr. Wagner, que parecia muito tranqilo. - Tenho evidncias conclusivas 

de que um residente desta cidade  o responsvel pelo atraso na construo da rodovia
     - Pronto, estava dito.
     Vendo que o sr. Wagner mostrava-se to surpreso quanto c outros, sua autoconfiana vacilou. Talvez Jason e ela estivessem errados... Mas haviam analisado cuidadosamente 

todos os documentos envolvidos no caso, com a ajuda de Sally. No, no ha dvidas.
     - Bem, Victoria, no nos deixe nesse suspense. Quem  culpado?
     - Primeiro, gostaria de lhes mostrar as provas. - Victria entregou-lhes cpias das listas de transaes imobilirias nos ltimos trs anos.
     Depois de alguns minutos de silncio, enquanto todos examinavam as listas, o sr. Wagner ergueu os olhos e... sorriu!
     - Ora, Frank, voc comprou centenas de acres de terra longo da velha trilha, onde est sendo planejada a estrada - dos membros observou.
     O sr. Wagner assentiu, com um ar satisfeito.
     - E fiquei sabendo que o senhor tem um amigo, no Departamento de Estradas - Victoria juntou.
     Novamente ele concordou, os olhos brilhando.
     
     108
     
     Victoria estava confusa e atnita. Ele parecia to... inocente! Talvez estivesse senil, no se lembrava do que havia feito. Ou, quem sabe, estivesse sendo 
manipulado 
por outra pessoa.
     Com esforo, tentou se controlar. Tinha de levar aquilo adiante, era sua obrigao.
     - As provas indicam que as compras das terras iniciaram logo aps a aprovao do plano de construo da rodovia de paradise Falis, h trs anos. Mas, desde 

ento, o projeto ficou preso no Departamento de Planejamento. - Engoliu em seco, antes de concluir: - Este Departamento  dirigido por seu amigo, sr. Wagner?
     Todos os olhares estavam fixos nele, agora.
     Isto  correto- ele respondeu, sorrindo.
     Victoria massageou as tmporas.
     - Creio que devo adverti-lo de que, se quiser, pode ter a presena de um advogado, antes de responder.
     - Mas eu no impedi a construo da estrada - o sr. Wagner falou. - Na verdade, a idia de comprar as terras s me ocorreu depois que liguei para o Departamento 

de Planejamento para verificar o motivo do atraso. E este motivo, como todos sabem, devia-se a um problema com um veio de gua subterrneo, que dificultava as obras. 

Eles tiveram de refazer todos os planos.
     - Ento qual foi sua parte nisto tudo? - um dos homens indagou. - Planejava comprar as terras para vend-las a preos mais altos, quando a construo comeasse?
     O sr. Wagner riu, balanando a cabea.
     - No. Eu vou doar as terras ao Estado, para a construo da estrada e de parques.
     Victoria encarou-o, incrdula.
     - Aquelas terras devem valer mais de um milho de dlares!
     - Muito mais -. ele declarou, todo contente. - Comprei terrenos suficientes para se construir um parque de cada lado da rodovia e, os restantes, vo ser doados 

ao municpio. Falta apenas um terreno, mas o marido de Sally passou na minha frente: comprou-o para montar um rancho, ou um hotel, no sei. - Fez uma pausa, aproveitando 

o silncio atnito de seus ouvintes, e prosseguiu: - A nica pessoa que tinha conhecimento disto  meu advogado. Preparou um testamento, para a possibilidade de 

eu morrer antes que tudo estivesse concludo. Afinal, estou com setenta e cinco anos e no posso prever o futuro.
     
     109
     
     - Sr. Wagner, por que no nos contou? - Victoria inter ento. - O senhor sabia o quanto estvamos preocupados este assunto.
     - Queria fazer uma surpresa - o velhinho respondeu, - simplicidade. - Planejava fazer a doao durante as comemoraes do centenrio da cidade, mas no consegui 

comprar ltimo terreno.
     - Uma surpresa... - Victoria repetiu, sem saber se ria se chorava.
     -  a minha herana, meu legado ao povo desta cidade. Sou vivo, no tenho filhos nem famlia. Pensei que talvez pudessem dar meu nome a um dos parques.
     Depois desta confisso, todos os membros do Conselho - riam falar ao mesmo tempo. Finalmente, ficou decidido que a doao do sr. Wagner seria oficializada 
no 
dia seguinte, mesmo faltando um terreno, e uma comisso seria encarregada de acompanhar de perto o desenvolvimento dos planos para a estrada. Tendo os problemas 

resolvidos, Victoria encerrou a reunio.
     No restante da semana, Victoria no teve nenhuma notcia Jason. Prosseguiu com sua rotina costumeira, trabalhando na tique e na prefeitura, embora cada nervo 

em seu corpo vibra cada vez que pensava nele.
     Ao final daquele dia de trabalho, trancou a loja e foi casa, decidida a procur-lo. S falara com a me dele no ir da semana e, quem sabe, ele havia retornado. 

No podia mais suportar a impacincia. Tinha tantas coisas a lhe dizer!
     Assim que chegou, pegou o telefone. Myra atendeu e, r tom de reprovao, disse-lhe que Jason estava novamente pedado no hotel.
     Ento ele havia voltado  cidade... E no a procurara...
     Um profundo sentimento de rejeio a invadiu. Se ele a amava por que agia assim? Ou ser que estava enganada?
     Olhou pela janela, vendo as luzes da cidade. Ao longe, podia avistar o edifcio moderno do hotel. Ele estaria l, sozinho?
     E ela ali, em sua casa, sozinha tambm...
     Tomou uma deciso. Sem se dar tempo de refletir duas vezes. pegou a bolsa e saiu.
     Minutos depois, chegava ao hotel. Entrou no saguo deserto e foi para a sala de estar. 
     
     110
     
     A lareira estava acesa e, diante de uma das janelas, Jason olhava para fora, imerso em pensamentos.
     Um arrepio percorreu o corpo de Victoria.
     Ol, Jason - falou, entrando na sala, com as pernas trmulas.
     - Victoria? - Virou-se para ela, surpreso. Tinha um copo de conhaque numa das mos. - Est bem frio, hoje. Gostaria de beber alguma coisa?
     - No, obrigada. Vou ficar junto ao fogo. - Ela sentou numa das poltronas. - Quero falar com voc, Jason. - Fez uma pausa e respirou fundo, reunindo toda sua 

coragem. - Sei que voc me ama - afirmou.
     Ele riu, um som frio, cnico.
     - Amar? Ora, esta  uma palavra simples demais! O que sinto por voc no pode ser medido assim, Victoria. Voc  a razo de minha vida, o ar que respiro... 

E eu a quis desde o primeiro instante em que a vi. Mesmo sabendo que voc pertencia a meu primo e melhor amigo, eu a desejei. Engraado, no acha?
     -No.
     O sorriso irnico sumiu do rosto dele.
     - Estou viva h sete anos, Jason. Por que nunca me procurou?
     - Porque voc nem sabia de minha existncia. At o dia em que precisou de um favor.
     - Sinto muito por isso - ela admitiu. - Mas voc sempre esteve to distante, afastado da famlia... No entanto, quando fui procur-lo, descobri que voc  
muito 
diferente do que tenta aparentar. Eu...
     - No sou John, Victoria.
     - Eu sei. - Ela suspirou e levantou-se, aproximando-se dele. - E amo voc por isso.
     - E o que vai acontecer quando abrir os olhos e descobrir que cometeu um erro terrvel? No me esqueo nunca do desapontamento que vi em seus olhos, naquela 

noite, quando despertou e percebeu que no era John quem estava ao seu lado. Se ao menos eu estivesse com vocs...
     Ela tocou-lhe os lbios com a ponta do dedo.
     - No teria mudado nada. Foi o destino que quis assim, Jason. Voc  apenas um homem, no  Deus. E o homem que amo.
     Ele virou-lhe as costas, sem nada dizer.
     - Tudo isso aconteceu h muito tempo - ela prosseguiu. - Tente esquecer, como eu esqueci.
     
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      - Diga que me ama, como eu amo, Jason. Mas, se disser que no, vou embora agora, e nunca mais me ver.
     Ele permaneceu rgido, em silncio, de costas para ela.
     Com lgrimas nos olhos, Victoria percebeu que tudo o c imaginara fora apenas um sonho. No haveria futuro para e. Jason jamais seria capaz de esquecer o passado.
     - Adeus, meu querido. Espero que possa encontrar a felicidade que merece. - Com um soluo, correu para fora da sala.
     - Espere! - ele gritou, indo em seu encalo. Segurou-a brao e abraou-a, ofegando. - Victoria, no me abandone vez!
     Ela ergueu os olhos molhados para ele.
     - Ento diga... Diga o que quero ouvir, Jason.
     - Amo voc, Victoria - ele sussurrou, abraando-a fora.
     Seus lbios se encontraram, num beijo quente e vido, que poderia durar toda a eternidade.
     - Quero que se case comigo, quero passar a vida inteira seu lado - ele disse, beijando-a pelo rosto, nos olhos, na boca, no pescoo. - Vamos ter uma poro 

de filhos, de netos... Seremos o casal mais feliz deste mundo!
     - Acho timo! - ela disse, rindo e pressionando o contra o dele, sentindo que poderia explodir de felicidade.
     O futuro lhes pertencia, a partir de agora. Nada mais, nem lembranas dolorosas, nem  distncia, haveria de separ-los.
     Uma poro de filhos, ele dissera... Bem, dois ou trs j a deixariam satisfeita.
     Mas era uma idia. Uma idia feliz.

      F  I  M
